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Luiz Carlos Merten

25 Novembro 2009 | 23h38

Entrevistei anteontem o animador italiano Bruno Bozzetto, que integra a delegação presente na cidade para prestigiar/promover a 5ª Semana Pirelli do Cinema Italiano. Achei o cara muito simpático e sugiro que busquem na internet seus curtas da série ‘Far West’, que são muito divertidos. Bozzetto me disse qe esperava aproveitar a estada no Brasil para conhecer Giuseppe Tornatore, o homenageado com a retrospectiva deste ano. É curioso que os caminhos de ambos nunca se tenham cruzado. Bozzetto mora em Bérgamo e me falou maravilhas de Ermanno Olmi, autor a quem muito admiro. Disse que vive numa rergião cercado pelos ‘contadini’ dos filmes de Olmi – adorei seus relatos. Hoje pela manhã, houve a coletiva de apresentação da ‘Semana’. Cheguei tarde, mas a tempo de ouvir o chefe da representação italiana dizer que o objetivo final do evento é promover a interação de profissionais de ambos os países. Na primeira semana, um só filme foi comprado para o Brasil. Na atual, de 14 títulos, pelo menos sete já foram comprados. E os italianos também começam a ver cinema ‘brasiliano’. ‘Estômago’, ‘Tropa de Elite’ – muita gente agora vai querer cortar os pulsos. Os italianos estão muito curiosos em relação a ‘Lula’ (o filme). Dou essa geral, depois posso até voltar aos temas. Depois de amanhã, chega Maria Grazia Cucinotta, que era o objeto de desejo de Massimo Troisi em ‘O Carteiro e o Poeta’, o belo filme de Michael Bradford. Também ouvi Giuseppe Tornatore dizer que ‘Baarìa’, que abriu o Festival de Veneza, é seu filme mais pessoal. Até onde sei, foi recebido a pedradas. Cunha Jr. da TV Cultura, sentado à minha frente, reiterou que só leu coisas ruins sobre o filme na internet – conversamos isso antes da projeção e eu não sei, realmente, o que pensou meu colega Zanin, Luiz Zanin Oricchio, na sua cobertura de Veneza. De minha parte, quero dizer que viajei em ‘Baarìa’ e a visão de Tornatore sobre a região em que nasceu – e que ele usa como microcosmos para falar da Itália dos anos 1930 aos 80 – me tocou muito. E o filme também é ‘sobre’ cinema, como ‘Cinema Paradiso’, que valeu a Tornatore seu Oscar (e contribuiu, com certeza, para o título de comendatore). ‘Baarìa’ é o representante da Itália para disputar nova vaga no Oscar. Concorre, entre muitos outros filmes, com ‘Salve Geral’, de Sérgio Rezende. ‘Baarìa’ tem uma estrutura narrativa muito forte, muito rica. Avança e depois recua, para lançar a pergunta, quasndo um personafgem se interroga – ‘Estava sonhando antes, ou estou sonhandfo agora?’ O limite dessa beleza, e ele não é reducionista, é a cena em que o herói corre para frente, em busca de se destino, e cruza consigo mesmo, já correndo de volta. Monica Bellucci faz uma participação especial, ‘amigável’. Tornatore, obviamente, a ama, como ama o menino, personagem sempre presente em seu cinema, cujo tema, um dos, não deixa de ser uma espécie de aprendizado. ‘Baarìa’ terá sessão na sexta, no HSBC Belas Artes, que também exibe – antes – ‘Cinema Paradiso’. Um duplo e tanto para homenagear o ‘comendador’ do cinema italiano.