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Luiz Carlos Merten

06 Abril 2007 | 20h21

PORTO ALEGRE – Há um diferencial na comédia italiana de Comencini, Monicelli e Risi e que foi assimilado por Ettore Scola. É uma tragicomédia, no limite entre o riso e o choro. Esse elemento dramático já estava presente em Retorno ao Lar, de 1960, mas irrompe, definitivo, em A Garota de Bube. Tendo provado a si mesmo do que era capaz com Retorno ao Lar e A Garota, Comencini realizou, por volta de 1967/68, um dos mais belos filmes sobre a infância. L’Incompresso, que aqui se chamou Quando o Amor É Cruel. É a história de um garoto, órfão de mãe, que sofre com o que lhe parece a indiferença do pai. No limite do abandono e da tristeza, ele pensa em se matar – e a infância suicida já havia sido tema de um grande filme de Rosasellini, Alemanha, Ano Zero, inspirado, em parte, pela morte trágica do filho do cineasta. Comencini fez a seguir um jovem Casanova (com Leonard Whiting, o Romeu de Franco Zeffirelli), nos antípodas do que seria o Casanova decadente de Fellini. Em 1972, com Lo Scopone Cientifico, que no Brasil se chamou Semeando a Ilusão, logrou nova abordagem densa e trágica da família. A obsessão do jogo ligava uma velha que humilhava um casal, papéis interpretados por Bette Davis, Silvana Mangano e Alberto Sordi, provocando a reação letal de uma criança, cujo olhar externava todo o desgosto do diretor pelo mundo dos adultos. Francesca Comencini, filha de Luigi, disse que seu pai amava os excluídos e os frágeis e ninguém é mais frágil que uma criança. Daí a importância que a representação da infância assume em seu cinema. Um de seus últimos filmes foi feito para TV, As Aventuras de Pinóquio, sobre o boneco que queria ser menino, com Nino Manfredi como Gepetto e Gina Lollobrigida como a fada. Era um filme lindo e teria sido um fecho perfeito para a carreira de Comencini, mas ele ainda fez uma Bohème (cantada, com Barbara Hendricks) e um remake dispensável de Marcelino, Pão e Vinho. Comencini deveria fazer 91 anos em junho. Boa parte do mal-entendido sobre ele deve-se ao fato de que, durante muito tempo, os críticos se recusaram a encarar a comédia italiana como uma forma de arte. Quando o fizeram, não apenas Comencini, mas Monicelli e Risi passaram a ser reverenciados como grandes.

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