Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Comencini (1)

Cultura

Luiz Carlos Merten

06 Abril 2007 | 19h57

PORTO ALEGRE – Liguei hoje para o jornal para saber se estava tudo bem, um cacoete do qual não me livro nem durante folga, e Dib Carneiro Neto, meu editor, disse que havia morrido um diretor italiano – um dos meus velhos. Morreu Luigi Comencini, um dos grandes da comédia italiana (com Dino Risi e Monicelli)e pai de duas diretoras, Cristina e Francesca. Esta última, ligada ao Fórum Mundial Social – esteve em Porto no ano em que o audiovisual foi debatido, como ferramenta para a construção do ‘outro mundo possível’-, dirigiu Carlo Giuliano, Ragazzo, sobre o jovem que virou mártir da luta antiglobalização, vítima que foi da repressão, durante os protestos contra a cúpula do G-7 em Turim. Comencini, além de sua obra como cineasta, era muito respeitado na Itália por ter sido, com Alberto Lattuada e um tal de Ferrara cujo nome não me lembro, um dos criadores da Cineteca Italiana, a cinemateca da Península, que desenvolve um importante trabalho de preservação da memória do país e do mundo, tendo um departamento de restauro muito respeitado. Comencini foi arquiteto e jornalista antes de estrear na direção, nos anos 40. Seu primeiro longa, Proibito Rubare, tratava da infância carente no quadro da Itália derrotada na 2ª Guerra, exatamente como boa parte (a mais expressiva) do cinema italiano da épçoca, marcado pela experiência do neo-realismo. Mas Comencini, se alguma vez pertenceu ao movimento, dele se desligou ao descobrir o humor com Totò (L’Imperatore di Capri, em 1949). Em 1953/54, ele fez dois filmes de uma série que se tornou muito popular, Pão, Amor e Fantasia, ao qual se seguiu Pão, Amor e Ciúme, ambos com Vittorio de Sica como o Marechal e a jovem Gina Lollobrigida como a Bersagliera. A crítica caiu matando sobre o neo-realismo róseo de Comencini, dizendo que ele estava diluindo a estética neo-realista. A verdade é que, pela mesma época, Visconti, Rossellini, Antonioni e Fellini estavam mudando (ou já haviam, mudado) o neo-realismo clássico. Confesso que adorava as comédias do Comencini – Mulheres Perigosas, com Sylva Koscina, e Retorno ao Lar, com Alberto Sordi. Em 1963 (não tenho certeza quanto ao ano), ele fez, com Claudia Cardinale, o mais zurliniano dos filmes que Zurlini não realizou. A Garota de Bube foi um divisor de águas na carreira de Comencini, mas isso é tema para o próximo post.

Encontrou algum erro? Entre em contato