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Comédias românticas

Luiz Carlos Merten

07 Dezembro 2008 | 17h04

Fiquei com a internet fora do ar por algumas horas, o que me impediu de acrescentar logo o post que começo a escrever agora. Entrei pela madrugada assistindo na Globo a ‘Tudo em Família’. Muitos de vocês devem estar achando que tenho um (ou vários?) neurônios a menos, mas já vi ‘N’ vezes a comédia de Thomas Bezucha com Sarah Jessica Parker. Patricia Vilhalba, minha ‘amiga secreta’ na festinha que o ‘Caderno 2’ realizou na sexta-feira à noite, que me desculpe, mas ela sabe que não tenho muita paciência para séries de TV. Patricia sempre tentou me convencer da importância de ‘Sex and the City, mas eu nunca consegui ver episódio inteiro nenhum (e achei o filme uma nulidade). Já que entrei no assunto séries, vejo de vez em quando ‘House’ – a melhorzinha – e, eventualmente, filo um episódio de ‘Brothers & Sisters’, que é novelinha, mas tem personagens e situações bem simpáticos. Mas, enfim, mesmo não gostando de ‘Tudo em Família’ como ‘cinema’, ‘arte’, seja lá o que for, sou forçado admitir que a odisséia de Sarah Jessica Parker na família Stone sempre me apanha e eu termino por ver o filme inteiro. Não posso opinar sobre Sarah Jessica em ‘Sex and the City’ – no filme, ela muda tanto de vestido que não tem tempo de atuar, coitada -, mas acho que é ótima em ‘Tudo em Família’. Adoro a cena do jantar, em que Diane Keaton inicia aquele discurso absurdo dizendo que queria que todos os filhos homens fossem gays, a Sarah Jessica tenta contradizer, mas tudo o que vai dizendo fica cada vez mais preconceituoso e a cena termina com papai Craig T. Nelson mandando todo mundo calar a boca, aos gritos. Craig – ele melhorou muito ao envelhecer – tem uma cena linda com Diane, quando a supermãe, na cama, admite que está morrendo de medo, e morrendo de verdade, como insinua a abertura da blusa, que deixa ver o corte do que deve ter sido uma mastectomia. O cinema tem dessas coisas – o filme não é de arte, pode até ser ruim, mas alguma coisa nos apanha. Neste caso deve ser o elenco, a química entre Sarah Jessica, Luke Wilson, Diane Keaton, Craig T. Nelson, Claire Danes etc. Já que falei sobre ‘Tudo em Família’, quero acrescentar algumas linhas sobre outra comédia romântica da qual gosto mais e que também vi ontem, ou anteontem, na TV paga – ‘Totalmente Apaixonados’. O filme é dirigido por Bart Freundlich, marido de Julianne Moore e a própria Julianne é a estrela, no papel de uma famosa atriz de teatro, Rebecca, em crise porque seu casamento com David Duchovny está desmoronando. David, ex-‘Arquivo X’, aliás, é o astro da série ‘Californication’, da qual Freundlich é um dos criadores ou, pelo menos, diretor de episódios. ‘Totalmente Apaixonados’ chama-se, no original, ‘Trust the Man’ e o tema é justamente a crise de confiança. É sobre gente que tem medo de confiar. Julianne, isto é, Rebecca, descobre a traição do marido e o põe para fora de casa. Ele freqüenta um grupo de apoio e seu grande teste é jogar-se, de costas, para ser amparado pelos companheiros. Julianne tem um irmão, Billy Crudup, que também é o melhor amigo de Duchovny. Billy não confia nem no próprio psiquiatra e mantém uma ligação enrolada com Maggie Gyllenhaal, que resolve dar um tempo na relação e arranja outro. Tudo converge para a grande cena final no teatro, quando o diretor implode as fronteiras da realidade e da ficção. Duchovny declara seu amor a Julianne, que está acabando de representar no palco. Crudup, num lado da platéia, chama aos gritos a atenção de Maggie, que está do outro lado, e tambédm se declara para ela. O público, no meio, fica seguindo o que ocorre. Por mais banal que aquilo possa ser – eu não acho -, me emociono genuinamente. Cada vez que vejo, e também já vi várias vezes, fico de coração na mão, à espera da fala de Maggie, quando ela diz que sempre esperou por aquela prova de confiança de Crudup. Ontem, acho que fiquei com o coração mais na mão do que nunca – me deu uma aceleração do batimento que eu disse lá comigo ‘Calma, Merten, não vai enfartar, pós-cirurgia, e ainda por cima vendo uma comédiazinha romântica…’ Que maravilhosas atrizes, vou colocar no plural, são a Julianne Moore e a Maggie Gyllenhaal. E o Freundlich cria o recurso que, no meio daquela confusão toda, me faz chorar de rir – a velhinha que fica perguntando se aquilo faz parte da peça. Meu lado ‘crítico’ pode até torcer o nariz, mas o outro, o do ‘público’, deixa fluir a emoção. Isso parece coisa de esquizofrênico. Vamos acabar com essa psicanálise tola. Analista, aqui, só o de Bagé. E ‘Totalmente Apaixonados’ é um filme encantador, da mesma forma que, em ‘Tudo em Família’, a cena do jogo, em que Sarah Jessica Parker tem de fornecer as pistas, só por mímica, para a adivinhação do nome do filme – ‘A Noiva Estava de Preto’ -, é um regalo.