Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Começou!

Cultura

Luiz Carlos Merten

07 Agosto 2010 | 11h08

GRAMADO – Meu amigo Dib Carneiro que me desculpe, mas ontem, ao digitar o nome da peça dele que tem similaridades com a novela ‘Enquanto a Noite não Chega’, que deu origem ao filme de Beto Souza que concorre aqui no festival, saiu no automático ‘Anoitecer’. Vá saber qual é o ato falho, uma tarefa para o dr. Freud. A peça chama-se ‘Paraíso’ e, dos textos dele que li me pareceu o melhor, embora Gabnriel Villela me garanta que a adaptação de ‘A Crônica da Casa Asassinada’, de Lúcion Cardoso, é a obra-prima do Dib (e olhem que ele já ganhou o Shell por ‘Salmo 91’, que adfaptou de ‘Estacao Carandiru’, de Drauzio Varela. Feita a correção, vamos às novidades do primeiro dia do 38° Festyival de Gramado. ‘Bróder’ entrou na competição. O filme estava sendo anunciado fora de concurso, mas ontem a equipe já subiu ao palco como concorrente. Não descarto a possibilidade, claro, mas vai ser difícil encontrar atores melhores. Ou jovens atrizes mais lindas – é cada uma mais bela que a outra. Esse Jeferson De me saiu com um bom olho para mulheres. Havia visto ‘Bróder’ em Berlim e gostado, mas sem entusiasmo. Não sabia nem que reparos fazer, exatamente. Depois, quando vi o novo ‘Cinco Vezes Favela’, com a mesma proposta, alguém de dentro falando da violência da periferia, gostei mais do filme da garotada de Cacá Diegues e até nem entendi porque os coleguinhas brasileiros, em Cannes, caíram matando no projeto (no privado, não sei se em sites, blogs ou jornais foram tão duros). Jeferson, aproveitando que o filme dele tem futebol, dedicou a sessão de ontem à brava nação colorada e foi uma apoteose no palácio dos festivais. A propósito, vim ontem para Porto num voo repleto de torcedores do Inter que curtiam a ressaca da euforia. Sentei-me entre dois colorados, cada um mais pilhado que o outro e era o clima no avião. É incrível, mas o futebol celebra, maiks do que qualquer outra atividade, a n ossa cidadania. De volta a ‘Bróder’, o filme é sobre três amigos que seguiram rumos diferentes na vida. Um permaneceu na periferia, os outros dois saíram (e um foi ser jogador na Espanha). Agora, estão de volta, juntos, pelo espaço de um dia e uma noite, durante os quais vão aflorar velhgos conflitos. O personagem de Caio Blat, Marcu, tem uma dívida para saldar e aceita participar do sequestro de um garoto rico, mas, de repente, os planos mudam e o sequestrador quer que a vítima seja o jogador. Vira a maior m… Independentemente de ser obra-prima, ou não – não! -,’Bróder’ é muito forte e as grandes cenas passam pelas interpretações de um elenco muito bem preparado. Tenho de confessar, em nome da honestidade, que o Caio, de quem gosto tanto, desta vez me incomodou. Há algo de excessivo na sua interpretação – mas o fecho está de acordo com o começo -, que me pareceu algo exagerado. Sílvio Guindane, Jonathan Haagensen, Cássia Kiss e Ailton Graça já são todos candidatos a melhores. E o filme tem realmente cenas esplêndidas. Me tocou muito Cásia Kiss pondo a mão no peito e dizendo que sentia uma opressão, uma sensação de coisa ruim e ela diz isso num diálogo com o filho. O casal de velhos de ‘Enquanto a Noite não Chega’ também viu o filho partir para a guerra, de onde não retornou. O pai observa que milhares de jovens morreram, mas para a mãe só interessa – e doi – a morte do filho. Amo o livro de Josué Guimarães, mas não consegui entrar no clima do filme. O ‘meu’ Josué aparece muito mais no filme de Paz Encima, ‘Hamaca Paraguaya’, e na peça de Dib Carneiro, ‘Paraíso’, e o curioso é que nenhum dos dois conhece o livro. O filme de Beto Souza tem música demais e tudo o que o diretor acrescentou para construir sua história não soma ao drama dos velhos. Pensei comigo. Se tirasse a música, filmasse em preto e branco e trocasse os atores, Beto talvez tivesse chance. Não que Miguel Ramos e Clênia Teixeira não sejam bons, ou não possam ser bons. Mas na mínima entonação, no mínimo gesto, eles põem uma ênfase que a mim parece exagerada. O ‘meu’ filme sonhado de ‘Enquanto a Noite não Chega’ seria muito mais Ozu, com aquela contenção extraordinária do Chisu Ryu. Enfim, começou! E o festival está pródigo em sessões paralelas. Às 2 da tarde teremos o ‘Dois Irmãos’, de Daniel Burman, que não quero perder. Vamos lá!

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Encontrou algum erro? Entre em contato