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Começou! (E eu aqui dando uma de Mister Magoo)

Luiz Carlos Merten

28 Abril 2014 | 10h05

RECIFE – Olá, cá estou no Cine PE, depois de um périp´lo que me levou ao Rio, para visitar o sert de O Divã 2, e Salvador, onde assisti à filmagem de uma cena importante do longa de Vicente Amorim (e da produtora Iafa Britz). sobre Irmã Dulce. Um calor do cão – senegalesco, como se diz – e aquela multidão de figurantes em trajes de época, muita gente de manga comprida (o que tinha a vantagem de proteger do sol) e dezenas de ‘religiosos’, com hábito e batina. Quase cozinhei, só de olhar. O Cine PE começou no sábado, cheguei em cima da hora, e de cara perdi os óculos. Ainda não consegui fazer outros, o que me obriga a digitar esses textos meio às cegas – meu problema é para enxergar de perto. De longe, tenho olhos de águia. Assisti no sábado a uma extensa programação de curtas pernambucanos e outros que integram a competição (mas a mostra pernambucana também é competitiva). Assisti na primeira o melhor curta que vi até agora, todas as seções confundidas, para se usar um jargão de Cannes. Vaio ser difícil, meio cego, como estou, dar conta da beleza de Rabutaia, de Brenda Lígia, sobre o tio dela, um personagem maravilhoso.  Afrodescendente, ele usava quando jovem aquele cabelo Black Power. Conheceu o racismo, que deixa cicatrizes. Poderia ter virado marginal, quem sabe, mas já vinha de uma família de bem, encontrou uma mulher maravilhosa como ele. Construiu uma família. Numa cemna de confraternização, tocam, em ritmo de Samba, o Hino Nacional. Me emocionei tanto que chorei, mas sou um manteiga derretida, vocês sabem. Durante décadas, os militares no poder impuseram ao povo brasileiro um regime de caserna. O hino, a bandeira, como símbolos pátrios, só podiam ser reverenciados do jeito deles. E aí o hino vira motivo de festa, na cadência do povo. Pura linguagem e pura política. Amei. Ontem à noite, a programasção prosseguiu com duas obras que dialogaram entre si de forma muito inteligente. O Mercado de Notícias, de Jorge Furtado, e Getúlio, de João Jardim. Gosto de ambos, mas gostei mais ainda de Getúlio, que só cresce no meu imaginário. O Mercado de Notícias, de alguma forma, me produziu certa exasperação. Toda aquela gente cagando regras e como diz, acho que Renata Lo Prete, é precisão ouvir as verdades e mentiras que as pessoas têm a dizer para filtrar, daí, a verdade factual, a que se refere tantas vezes Mino Carta. Tive a sensação de que estava tendo ontem de filtrar mais informações do que quando vi o filme pela primeira vez. Mas amei quando, em Getúlio, Daniel Dantas, como Almino Afonso, retruca a Gustavo Capanema que diz que não se pode derrubar o governo sem provas – ‘As provas estão nos jornais?’ Como? E mais adiante, Carlos Lacerda proporciona ao militar encarregado da investigação sobre o atentado da Rua Toneleiros uma capa falsa para pressionar o guarda-costas do presidente, Gregório, a incriminar os Vargas. Todo Mercado de Notícias está naquelas duas cenas da admirável ficção de João Jardim, que estréia quinta. Volto com mais notícias em seguida, e me desculpem pelos erros de digitação. Estou aqui digitando feito Mister Magoo.