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Começou! (A grande retrospectiva de Visconti)

Luiz Carlos Merten

01 Março 2018 | 09h53

Fui fazer ontem a apresentação da retrospectiva de Luchino Visconti no CineSesc. Cheguei morrendo de dor no joelho, umas agulhadas fortes que me desestabilizavam para andar. Comecei a falar e até me esqueci. Talvez tenha sido excessivo, longo, mas… Visconti! O Conde Vermelho! O filme era Vagas Estrelas da Ursa – Sandra. Claudia Cardinale, a Electra de Visconti, Volterra, a fotografia em preto e branco de Armando Nannuzzi, Marie Bell ao piano, César Frank, o vento no jardim, o monumento descoberto, o fantasma do pai, o antifascismo. A maquiagem ‘etrusca’, a severidade esculpida no rosto de Claudia, o chapéu. E a lente zoom, dura, implacável naqueles rostos e corpos. É um imenso Visconti, talvez meu segundo prefereido, depois de Rocco e Seus Irmãos. Vaghe Stelle, o título, vem do poema de Giacomo Leopardi, sugerido a Visconti por Mario Soldati. A retrospectiva – 17 filmes – começa nesta quinta, 1.º. Não há um só filme que não peça nem mereça revisão, mas os que quero rever, triver, pentaver são pontuais. La Terra Trema, Senso, Rocco (sempre!), Il Lavoro, Lo Straniero. É o único Visconti que vi só uma vez. No Cine Vitória, em Porto Alegre. Visconti o considerava seu filho (filme) bastardo. Queria ter feito com Alain Delon, queria ter feito certas atualizações no texto, mas a viúva de Albert Camus foi intransigente. No final, preso a uma agenda estrita, o que não era seu feitio, fez. Dois filmes quase sucessivos, Vagas Estrelas e O Estrangeiro. Entre eles, A Bruxa Queimada Viva, La Stregha Bruciata Viva. A morte do pai, a morte da mãe, os três tiros fatais, três batidas na porta da eternidade. Vivi há alguns anos uma experiência curiosa. Estávamos em Roma, meu amigo Dib Carneiro e eu. Íamos, acho eu, à audiência pública do papa. Sim, eu fui. O papa Francisco. E, de repente, o carro estava parado numa rua, em frente a um daqueles palazzos. Todo fechado, mas o jardim ainda era impecável. Na esquina, li a placa. Via Salaria. Seria aquele o mítico palazzo dos Visconti, em que vivia Uberta, a irmã a quem Luchino tantas vezes convenceu a vender ou empenhar joias familiares para que ele pudesse fazer, com a suntuosidade que queria, seus filmes? Tergiverso, mas o próprio Visconti dizia que seu maior filme, nunca realizado, teria de ser sobre a grandeza e decadência de sua família.