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Luiz Carlos Merten

24 Janeiro 2012 | 10h24

TIRADENTES – Cá estou de novo no interior de Minas, nesta cidade que me encanta e neste festival que me inspira. Nossa, que chique dizer isso! Mas a Mostra de Tiradentes é ‘nossa’, da crítica, que encontra aqui o espaço para discussão e reflexão. FIz piada na van q2ue nos trouxe ontem de BH. Estava com colegas jornalistas (dois) e jovens cineastas (também dois). Disse que a gente ouve muito essa história (tola) de que crítico é cineasta frustrado. Tiradentes inverte a equação. Os cineastas aqui é que querem ser críticos. Como não sou corporativista, acho legal. Viajei ontem a tarde toda (uma hora de avião + quatro de van) e cheguei em cima da abertura da Mostra Aurora, menina dos olhos de Tiradentes, com o documentário ‘Balança mas não Cai’, de Leonardo Barcelos, sobre um edifício degradado do Centro de Belo Horizonte. Ainda não sei se gostei, mas gostei de ter visto. Quando o filme começa, o Tupis é uma excrescência no Centro de BH, um prédio caindo nos pedaços e ameaçado de tombamento (não histórico, de cair mesmo). Aparecem, por sinal, imagens de prédios sendo implodidos. Um deles desaba pela metade e outro cai inteiro para o lado, o que levou uma voz a se elevar no escyurinho da sala – ‘Olha a implosão do Kassab.’ Ha-ha. Como boa parte da produção0 da teia, ‘Balança’ tem um pé na videoarte, aonde começou o diretor. Alguns momentos são muito elaborados, em termos de pesquisa visual – Yma Sumac (achei que era ela, esperei pelos créditos para confirmar) canta na trilha e o timing é perfeito para certos efeitos plásticos quando a cantora peruana emite seus agudos. Barcelos ouve antigos moradores. No local, aparentemente, funcionava o clube dos cafajestes. Alguns depoiumentos são particularmente ‘incorretos’, mas, como diz um dos entrevistados, daqueles ‘irresponsáveis’ que abatiam empregadinhas saíram magistrados, engenheiros, professores e o escambau. Um dos nomes creditados é de Diniz não sei das quantas e a construtora que produz o filme tem o mesmo nome (será o próprio?). O debate é daqui a pouco, mas não sei se poderei participar. Afinal, é dia de anúncio do Oscar e terei uma capa do ‘Caderno 2’. Os entrevistados todos revelam a nostalgia do velho, a saudade de sua juventude no prédio. Saudade da irresponsabilidade, os responsáveis de hoje? Ainda estou deglutindo essa crítica em dois tempos, mas achei interessante o último plano, quando o novo Tupis, não implodido mas reformado, continua uma excrescência na paisagem, um verde abacate de um mau gosto horroroso. E existem tomadas magníficas. Movimentos circulares de câmera ao redor do prédio que não são (ou não parecem) filmagens de helicópteros. Movimentos verticais, em que a câmera desce. Como foram feitos? Depois da frenética perseguição de ‘As Aventuras de Tintim’, que é legal justamente por ser vertiginosa, ‘Balança’ foi outro (raro) filme que me levantou a questão do ‘como’ foi feito. Curioso…