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Luiz Carlos Merten

11 Maio 2011 | 13h08

CANNES – Cá estou eu de novo, no maior festival de cinema do mundo. Cheguei ontem e passeei pela Croisette, com todos aqueles cartazes que anunciam as grandes produções que vão movimentar os cinemas de todo o mundo nas próximas semanas (ou meses).O Carlton, maior hotel de Cannes, por exemplo, está embandeirado com o material promocional de ‘Alien Cowboys’, que, a propósito, estou nos cascos para ver. Podem me chamar de deslumbrado, mas assim como não perco a minha capacidade de vibrar com os filmes, não banco o blasé e, às vezes, tenho vontade de beliscar. Não sou o maior fã da fase atual de Woody Allen, mas poxa, é o cara. O festival abre dasqui a pouco, oficialmente, com ‘Midnight in Paris’, que vimos, sessão de imprensa, pela manhã. Na sequência, houve a coletiva. Logo depois, na cadeira central, em que se sentara Woody Allen, sentou-se Bernardo Bedrtolucci. Nâo, para ser exato, a cadeira foi afastada e no lugar entrou a cadeira de rodas. Bertoluccio, que recebe daqui a pouco sua Palma de Ouro de carreira das mãos de Robert De Niro – um dos atores de ‘Novecento’ -, fez uma cirurgia de coluna que o deixou paralítico. Quase chorei quando o Henri Behar, que fazia a mediação,  lembrou que Cannes Classics exibe a versão restaurada de ‘O Conformista’ e Bertolucci dsse que, às vezes, preferiria que alguma cinemateca o restaurasse, não a seus filmes. Sai Bertolucci e entra o júri. Agora sim, na cadeira que foi de Woody Allen, senta-se o presidente De Niro. Onde mais, numa sucessão de duas horas ou mais, eu poderia estar perto, na primeira fila, de todas essas personalidades? Confessem – vocês não goatariam de estar aqui? Nãããooooo? Não sabia nada do novo Woody Allen. Ele próprio disse que o título lhe veio antes da ‘história’. O que poderia ocorrer à meia-noite, em Paris? Só bem depois lhe veio a história desse roteirista de Hollywood que sonha escrever o romance de sua vida – Owen Wilson, mais Woody Allen que o próprio – e que acha que nunca houve um período melhor do que a cidade nos anos 1920, quando Paris era uma festa, com Ernest Hemingway, Scott e Zelda Fitzgerald etc. Owen caminha pela cidade, para um pouco para descansar, senta-se numa escadaria como quem vai dormir e chega ese carro que o leva numa viagem no tempo. De repente, ele está diante de seus ídolos – Scott, Ernest e os outros. O filme tem um conceito bem legal. Depois de meia-hora, 40 minutos, a piada parece que vai se esgotar, mas Woody, que não é bobo, renova sua galeria de personagens. Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dalí, Luis Buñuel, Man Ray. A gente espera para ver quem vem e qual será a piad que Woody vai reservar para cada um deles. Nãovou tirar a graça, mas, para Don Luis, ele fornece a chave para um de seus grandes filmes, mas o surrealista Buñuel, num assomo de racionalismo, começa a contestar as possibilidades da história. Owen Wilson lhe diz – talvez um dia ele deixew de fazer todas aquelas perguntas para fazer o filme. Não creio que ‘Meia-Noite em Paris’ venhja a ser considerado um grande Woody Allen, mas o próprio Allen tem ideioas muito equivocadas, para mim, do que sejam seus maiores filmes. Ah sim, Marion Cotillard é um assombro (mas quando ela não é?). Em compensação, a primeira dama Carla Bruni tem um ppel pequeno e não se pode dizer que seja 10. A pergunta que não quer calar – ela vem para a montée des marches? Daqui a pouco, a resposta. E Sarkozy? Com o índice mais baixo de popularidade de um presidente francês, em toda a história, Nicolas bem poderia aproveitar a trégua. Os franceses são cinéfilos, amam Woody Allen. Mas ele deve ter medo de uma vaia que poderia destruir o próprio filme.