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Luiz Carlos Merten

25 Janeiro 2011 | 10h47

TIRADENTES – Não tenho tido muito tempo para postar aqui em Tiradentes. Tenho de fazer os filmes na TV do ‘Caderno 2’, as matérias do dia, gosto de assistir aos debates, existe uma quantidade enorme de sessões (de curtas e longas). Para complicar, não tenho passado muito bem. A comida mineira me cai como uma pedra, tive diarreia (ainda tenho), mas vou poupá-los dos detalhes. Quero dizer que assisti de novo a ‘Alegria’, de Felipe Bragança e Marina Meliande, que já havia visto em Cannes e São Paulo. O filme não me havia impressionado muito. Anteontem à noite, foi uma vertigem. Ontem à tarde, no debate, Rodrigo Fonseca era o crítico convidado. Eles falavam muito na perspectiva dos jovens. Eu entrei como a geração mais velha. Fui sincero. Minha filha está saindo da minha casa para viver a vida dela e eu estou contente, mas é sempre uma ruptura. Tem uma cena breve do filme em que o pai está dormindo e a garota se despede dele, sussurrando em seu ouvido alguma coisa como ‘Tiau, pai, não sei ser volto.’ Chorei feito cão abandonado. Rodrigo, na mesa, disse que eu havia dado um depoimento pessoal, e é verdade, mas foi esse pezinho que me permitiu entrar no filme e apreciar as qualidades que, finalmente, terminaram swe impondo para mim. E o filme dialoga com o imaginário de Apichatpong Weerasethakul, a quem os diretores agradecem no final. Muito interessante. A Mostra Aurora, menina dosa olhos de Tiradentes, começou ontem à noite com ‘Enchente’, de Júlio Pecly e Paulo Silva. O filme é um documentário sobre a grande enchente que, em 1996, atingiu a Cidade de Deus, no Rio. A dupla de diretores veio da Cidade Deus, ambos sofreram perdas, ‘Enchente’ é um ato de exorcismo para ambos, como definiu o Júlio. ‘Enchente’ tem muita coisa forte, muita coisa impressionante. Uma mulher se volta hoje sobre o depoimento que deu no calor da hora, há 15 anos. Ela cobra dos políticos e da imprensa que é gente, não é bicho e que é desumano ser abandonada daquele jeito, sem que ninguém ligue para as condições em que (sobre)vivem os excluídos. ‘A gente trabalha para vocês, faz a comida, lava a roupa, limpa casa, não somos lixo.’ O filme é pródigo nesses momentos fortes, teve momentos aplaudidos em cena aberta, mas não estou muito convencido de que tenha um bom começo para a Mostra Aurora, com seu perfil de experimentação de linguagem e política. Vi ali muito mais a urgência da imagem, do tema, mas não a elaboração que um filme documentário talvez pudesse, ou devesse, ter, passado todo este tempo e a repetição sistemática das tragédias. Pecly e terminam seu filme perguntando pela próxima enchente. Para quando? Já foi, a deste ano, não proipriamente enchente, mas todos aqueles deslizamentos. Existe uma tessitura na imagem que é interessante, as várias técnicas com que as imagens foram captadas, em 1996 e hoje, mas nem isso chega a estabelecer um grande diferencial de pesquisa. Não estou negando o filme. Gostei de ter visto ‘Enchente’, mas não sei se gostei dele como ‘cinema’. Vamos ter o debate daqui a pouco. Lá vou eu, disposto a ouvir e, quem sabe, intervir.