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Luiz Carlos Merten

03 Março 2010 | 11h46

Cá estou eu pensando em qual post acrescentar, nesta nova fase do blog. Poderia ser ‘Idas e Vindas do Amor’, de Garry Marshall, que vi ontem, mas o filme não é bom – um ‘Love Actually’ da diversidade –, embora tenha um final bonito, ao mesmo tempo homenagem e ‘piscar de olhos’ do diretor com sua (eterna) linda mulher, Julia Roberts. Acho que vou mesmo de ‘A Single Man’, o longa de estreia do estilista Tom Ford, que estreia depois de amanhã. Já vou começar propondo um jogo para vocês. Fui instruído, pelamor de Deus, a abrir parágrafos para facilitar a vida do leitor. (Fortos, nem sonhar, desistam.) Mas, enfim, vou propor duas versões deste posdt e vocês vão me dizer qual preferem, a ‘joyceana’ ou a ‘outra’.

 Já disse que fiz uma individual com Colin Firth no ano passado, em Cannes. Ele achou graça – deve ter pensado que eu era um velhinho muito louco – porque não fazia a menor ideia de quem era Tom Ford. Vi depois na TV norte-americana uma entrevista bacana do cara, em que ele dizia que foi ator – mau – quando jovem e confessou que, há pelo menos 15 anos, era perseguido pela ideia de fazer um filme. Se demorou todo este tempo foi por causa da história, que era o principal. E ele sabia que seria um filme de atores, por isso escolheu meticulosamente mesmo os figurantes. ‘A Single Man’, um homem sozinho, solitário, ganhou um título esquisito no Brasil, ‘Direito de Amar’, porque na realidade não é disso que o filme trata. Colin Firth está fazendo seu luto, inconformado com a morte do companheiro. Nos EUA dos anos 1960, em plena crise dos mísseis, é significativo que ele habite uma casa transparente – pura arquitetura de vidro, como a de Clint Eastwood em ‘Interlúdio de Amor’ (Breezy), de 1973, que marca o verdadeiro início da carreira do grande diretor. O cenário, a casa, revela o drama do homem que vive uma existência dupla numa sociedade repressora. Na abertura de ‘A Single Man’, Colin Firth se ‘monta’ para o papel de respeitável professor numa universidade da Califórnia. Ele lustra o sapato, ajeita o nó da gravata, põe o terno que o transforma em ‘gente como a gente’. Mas este não é um dia como os outros, porque o herói, como Maurice Ronet em ‘Trinta Anos Esta Noite’, de Louis Malle, resolveu que vai se matar. O luto é, ao mesmo tempo, uma despedida. Tom Ford contou como se decidiu pelo livro de Christopher Isherwood numa fase de grande depressão. Ele havia deixado a maison Gucci, depois a Saint Laurent. Sentia-se meio à deriva na vida e, embora não fosse um luto, era um divórcio doloroso, que o paralisava. A escrita surgiu assim, e ela é importante. A mise-en-scène é minimalista, mas tão refinada – e até preciosista, por momentos – que o espectador pensa que se trata mesmo de um filme de estilista. Mas é injusto com o diretor Tom Ford. O próprio tema exigia esse ‘look’ particular. Porque Colin Firth, ou seu personagem, está idealizando o mundo do qual se despede. É um p… filme triste e eu espero que a observação não desestimule ninguém. Dizer que um filme é triste é condená-lo ao limbo, porque o público, de maneira geral, foge disso como o Diabo da cruz. mas a tristeza faz parte das nossas emoções e a despedida vira um rito de passagem – para o quê, vocês terão de ver para descobrir. Colin Firth merece o Oscar, mas não leva. Sua interpretação é interiorizada, nuançada. Não existe grito nem ranger de dentes. Isso não dá Oscar. A grande cena parece a da visita de Colin à sua vizinha Julianne Moore, com ecos de ‘Longe do Paraíso’, de Todd Haynes. Mas eu tenho para mim que a mais bela, e triste, é o encontro com o michê espanhol, um personagem tão solitário – e outsider – como o próprio professor. Embora dialogue com o melodrama (e Douglas Sirk), quero dizer que ‘A Single Man’ me lembrou, muito subjetivamente, Resnais. Não pela forma. Há 50 anos, quase, Resnais fez ‘Marienbad’, um filme puramente hipnótico. Movimentos de câmera, música, iluminação, cenários, figurinos, tudo ali é para os olhos, os sentidos. Os personagens são escultóricos, vistos somente do exterior. Não possuem interioridade. Mas isso ocorre não porque Resnais tenha perdido a mão. Era sua intenção. ‘A Single Man’ me deu a impressão de ser um ‘Marienbad’ com alma.

Vamos agora à outra.  Já disse que fiz uma individual com Colin Firth no ano passado, em Cannes. Ele achou graça – deve ter pensado que eu era um velhinho muito louco – porque não fazia a menor ideia de quem era Tom Ford. Vi depois na TV norte-americana uma entrevista bacana do cara, em que ele dizia que foi ator – mau – quando jovem e confessou que, há pelo menos 15 anos, era perseguido pela ideia de fazer um filme. Se demorou todo este tempo foi por causa da história, que era o principal. E ele sabia que seria um filme de atores, por isso escolheu meticulosamente mesmo os figurantes.

‘A Single Man’, um homem sozinho, solitário, ganhou um título esquisito no Brasil, ‘Direito de Amar’, porque na realidade não é disso que o filme trata. Colin Firth está fazendo seu luto, inconformado com a morte do companheiro. Nos EUA dos anos 1960, em plena crise dos mísseis, é significativo que ele habite uma casa transparente – pura arquitetura de vidro, como a de Clint Eastwood em ‘Interlúdio de Amor’ (Breezy), de 1973, que marca o verdadeiro início da carreira do grande diretor. O cenário, a casa, revela o drama do homem que vive uma existência dupla numa sociedade repressora.

Na abertura de ‘A Single Man’, Colin Firth se ‘monta’ para o papel de respeitável professor numa universidade da Califórnia. Ele lustra o sapato, ajeita o nó da gravata, põe o terno que o transforma em ‘gente como a gente’. Mas este não é um dia como os outros, porque o herói, como Maurice Ronet em ‘Trinta Anos Esta Noite’, de Louis Malle, adaptado do romance de Drieu de la Rochelle,  resolveu que vai se matar. O luto é, ao mesmo tempo, uma despedida. Tom Ford contou como se decidiu pelo livro de Christopher Isherwood numa fase de grande depressão. Ele havia deixado a maison Gucci, depois a Saint Laurent. Sentia-se meio à deriva na vida e, embora não fosse um luto, era um divórcio doloroso, que o paralisava. A escrita surgiu assim, e ela é importante.

A mise-en-scène, por sua vez, é minimalista, mas tão refinada – e até preciosista, por momentos – que o espectador pensa que se trata mesmo de um filme de estilista. Mas é injusto com o diretor Tom Ford. O próprio tema exigia esse ‘look’ particular. Porque Colin Firth, ou seu personagem, está idealizando o mundo do qual se despede. É um p… filme triste e eu espero que a observação não desestimule ninguém. Dizer que um filme é triste é condená-lo ao limbo, porque o público, de maneira geral, foge disso como o Diabo da cruz. mas a tristeza faz parte das nossas emoções e a despedida vira um rito de passagem – para o quê, vocês terão de ver para descobrir. Colin Firth merece o Oscar, mas não leva. Sua interpretação é interiorizada, nuançada. Não existe grito nem ranger de dentes. Isso não dá Oscar. A grande cena parece a da visita de Colin à sua vizinha Julianne Moore, com ecos de ‘Longe do Paraíso’, de Todd Haynes. Mas eu tenho para mim que a mais bela, e triste, é o encontro com o michê espanhol, um personagem tão solitário – e outsider – como o próprio professor.

Embora dialogue com o melodrama (e Douglas Sirk), quero dizer que ‘A Single Man’ me lembrou, muito subjetivamente, Resnais. Não pela forma. Há 50 anos, quase, Resnais fez ‘Marienbad’, um filme puramente hipnótico. Movimentos de câmera, música, iluminação, cenários, figurinos, tudo ali é para os olhos, os sentidos. Os personagens são escultóricos, vistos somente do exterior. Não possuem interioridade. Mas isso ocorre não porque Resnais tenha perdido a mão. Era sua intenção. ‘A Single Man’ me deu a impressão de ser um ‘Marienbad’ com alma.