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Com Rossellini na terra de Deus

Luiz Carlos Merten

24 Março 2018 | 09h30

Revi, com Dib Carneiro, na quinta à noite, A Livraria, que ele estava vendo pela primeira vez. Gostei mais ainda e as cenas de Emily Mortimer com Bill Nighy deveriam ser obrigatórias em cursos de interpretação para cinema. Confesso que ainda estava sob o efeito (terapêutico?) que o filme de Isabel Coixet exerce sobre mim – o estado do mundo, a banalidade do mal – quando fui ao médico, na manhã de ontem, sexta, e ele me disse que uma cirurgia é inevitável. Meu joelho acabou, está estourado, com afundamento do osso. Preciso de uma prótese, a cirurgia até já foi marcada. Meados de abril. Confesso que a confiança do médico me produziu um alívio. Essa dor tem de acabar. Saí do consultório e corri para o Frei Caneca, para a cabine de Stromboli, a versão restaurada do filme famoso de Roberto Rossellini com Ingrid Bergman, com reestreia prevista para a semana que vem. Talvez seja antipático o que vou dizer. Stromboli tem 70 anos, o mais recente dos filmes da retrospectiva de Luchino Visconti – O Inocente – tem 40 e ainda estão à frente dessa pasmaceira que virou o cinema autoral. Existem modelos – o cinema indie norteamericano, o brasileiro da Aurora, etc – que caem por terra confrontados com esses filmes que fazem parte da história. Primeira parceria de Rossellini com a ‘estrela’ Bergman, Stromboli entrou para a história como o filme do escândalo. Ambos viveram um tórrido affair e Bergman simplesmente comunicou ao marido e à filha, Pia, que os estava abandonando. Nem se despediu. Depois, na sua autobiografias, ela disse que Robertino mostrou-lhe um revólver, ameaçou matar-se, se ela voltasse para o ex-marido. Tudo isso é vida privada que se tornou pública, e o filme ficou marcado. Sobre o que é Stromboli? Karin/Bergman vai viver com um pescador na ilha do título, que abriga um vulcão. Para todos os efeitos, é uma estrangeira, não pertence àquele meio. Fiel ao método neorrealista, Rossellini faz com que a Bergman, uma top star, na época já vencedora de seu primeiro Oscar – por À Meia-Luz -, contracenassse com um pescador de verdade. Muito já se escreveu – livros, teses – sobre o que é, afinal, esse filme. Rossellini dizia que era sobre a velha Europa prostituída – e que, em seguida, abraçaria o Plano Marshall para se reerguer. Karin, que se sente cada vez mais estranha, pede ajuda ao padre. Conta sobre seu passado ‘horrível’ e só consegue se relacionar eroticamente – com o próprio padre -, o que alimenta preconceitos da comunidade e o ciúme do marido. A erupção do vulcão – a natureza que não pode ser domada, reprimida – a leva a decidir-se. Karin vai embora, mas, para isso, precisa pegar o barco a motor do outro lado da ilha. Para chegar lá, precisa escalar o vulcão, e ‘atravessá-lo’. Todo esse final vira uma experiência mística radical. O desespero, a graça. Dio, Dio, aiutame. Stromboli é terra de Deus, Land of God – o título nos EUA – e o filme é uma alegoria sobre o naufrágio moral de uma mulher na guerra, que precisou renunciar a tudo para sobreviver e agora passa por essa experiência regeneradora – para renascer? Rossellini desdramatiza o roteiro, prenunciando Viaggio in Italia, anos depois. O filme termina no alto do monte, diante da cratera do vulcão, sem solução. Karin vai seguir em frente, voltar? O mistério permanece. A beleza das imagens, também. Fotografia de Otelo Martelli, à qual se soma a trilha de Renzo Rossellini, irmão do diretor. Stromboli foi rodado entre abril e agosto de 1949. No ano anterior, Luchino Visconti fizera A Terra Treme, filmando pescadores no litoral da Sicília. Como Eisenstein, indo filmar no México, Visconti foi à Sicília para fazer uma revolução. Fez um filme de um esteticismo elaboradíssimo, que mais de um crítico considera o mais belo (visualmente) do cinema italiano. Não terá feito Rossellini um desagravo? Belo como é seu filme, o rigor neorrealista atravessa Stromboli e contamina sua estrela, a maior do mundo, na época. São questões a considerar, nesse bem-vindo retorno do grande cinema italiano às telas da cidade. Stromboli inaugura a chamada ‘trilogia della solitudine’ de Rossellini, que vai continuar com Europa 51 e Viagem na Itália. Talvez seja não uma trilogia, mas uma pentalogia, se acrescentarmos outros dois veículos para a Bergman – Joana D’Arc na Fogueira e La Paura/O Medo. Além do escândalo internacional, há que considerar outro, mais local – italiano. Rossellini ficava com Anna Magnani e planejava Stromboli para ela. A chegada da Bergman, que lhe enviara uma carta de Hollywood, oferecendo-se, incondicionalmente, para trabalhar com ele, mudou tudo. Despeitada, Anna foi fazer Volcano, com direção de William Dieterle, iniciando a chamada ‘guerra dos vulcões’. Rossellini fez sempre muito sucesso com as mulheres. Um sedutor. Franco Zeffirelli perguntou à Magnani qual era o segredo. Ele era dotado? A Magnani disse que era um filho da puta, isso sim, acrescentando que noi, donne, nós, mulheres, ‘gostamos de ser enroladas por esses tipos que não valem nada’. Isso é fato, documentado por Tag Gallagher em The Adventures of Roberto Rossellini. Para mim, com o Otto Preminger – The World and Its Double -, de Chris Fujiwara,é uma das melhores biografias escritas sobre cineastas.