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Luiz Carlos Merten

02 Junho 2007 | 13h27

Havia prometido para meu cunhado, em Porto Alegre, alguns DVDs de clássicos. Passei ontem na Gerasom, aquela loja da Galeria Califórnia a que já me referi, num post mais antigo, como local privilegiado para colecionadores interessados em adquirir filmes raros. Comprei alguns, ontem, mas hoje voltei para procurar, especificamente, Casablanca, de Michael Curtiz, com a dupla Humphrey Bogart/Ingrid Bergman. Aliás, permitam-me fazer uma correção no post de ontem, sobre À Beira do Abismo. Rebaixei o militar que contrata Philip Marlowe (Bogart) para uma missão – disse que era coronel, o velho é general. De volta à Gerasom, agora. Estava repassando os DVDs agrupados nas letras C e D, que estão juntas, e encontrei 55 Dias de Pequim, que Nicholas Ray fez no começo dos anos 50, na Espanha, onde o produtor Samuel Bronston criou um verdadeiro império, produzindo filmes de grande orçamento para combater a TV. Gosto muito dos dois filmes que Anthony Mann fez com ele – El Cid e A Queda do Império Romano, o pré-Gladiador, no qual o grande diretor antecipou, há mais de 40 anos, falando da decadência da Roma antiga, o que ocorreria no mundo atual. Os dois de Nick Ray são mais discutíveis – O Rei dos Reis e 55 Dias de Pequim. O segundo, que é o que me interessa, agora, narra o cerco que os boxers impuseram às embaixadas estrangeiras, em Pequim, no começo do século 20, quando reinava a imperatriz… Como se chamava ela? Flora Robson era a atriz no papel. O filme é uma típica produção de Hollywood, mesmo feita na Espanha. Tudo o que ocorre na tela – intrigas palacianas, batalhas com milhares de mortos – tem como única função permitir que o militar interpretado por Charlton Hreston se humanize, estendendo a mão para acolher em seus braços a garota chinesa, como John Wayne faz com Natalie Wood, no desfecho de Rastros de Ódio, a obra-prima de John Ford. A guerra dos boxers faz parte do combate ao colonialismo, na China. No final, a imperatriz, despojada das roupas e do cerimonial da corte, vê-se reduzida a simples mortal, Vestida com trajes de camponesa, para tentar fugir, ela entra pela última vez na antiga sala do trono e murmura – ‘A dinastia está terminada’. É aí que começa O Canhoneiro do Yang-Tsé, de Robert Wise, no qual Steve McQueen enfrenta as transformações que a revolução de Chiang Kai-Schek, antes de Mao, impôs à sociedade chinesa. De novo, a China é só o fundo para que outro americano (McQueen) tenha direito à sua segunda chance. São filmes colonialistas sobre o combate ao colonialismo. Impressionavam-me, na época – era mais jovem -, mas não tenho mais paciência para essas coisas. Mesmo assim, 55 Dias de Pequim é um dos filmes mais belos e amargos a que já assisti. A relação de Heston, o soldado, com Ava Gardner, a condessa russa ou coisa que o valha, demi-mondaine (para não dizer prostituta), é quase o repeteco daquela outra, entre Robert Taylor e Cyd Charisse, em A Bela do Bas-Fond, que é considerado um dos maiores filmes de Ray. E existe o esplendor da imagem. As cenas iniciais de 55 Dias de Pequim – o despertar da corte, a execução do condenado e, quando a cabeça dele cai, entra no campo visual a de Charlton Heston, à frente de seus homens – são um exemplo de montagem fluida, retrabalhando as atrações que interessavam a Eisenstein. Acho que vou voltar à Gerasom e comprar o DVD. Pode ser que termine por achar 55 Dias de Pequim um equívoco, ideologicamente, mas duvido que, do ponto de vista de estilo, vá ficar menos impressionado com o refinamento de Nick Ray.