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Luiz Carlos Merten

23 Janeiro 2007 | 11h39

Cheguei ontem em casa e me esperava a Coleção Gene Wilder, lançamento em DVD da Fox, com três filmes – O Maior Amante do Mundo, O Irmão Mais Esperto de Sherlock Holmes e O Expresso de Chicago. Gene Wilder é um personagem singular da comédia americana. Assisti a Bonnie & Clyde na estréia do grande filmes de Arthur Penn – que ganhou no Brasil o título horrível de Uma Rajada de Balas – e até hoje não esqueço a cena do Gene Wilder, quando ele é seqüestrado por Warren Beatty e Faye Dunaway. A cena é muito engraçada e proporciona o alívio cômico num filme que fica progressivamente mais sombrio e violento. (Bonnie & Clyde é um dos filmes cults da minha vida e a razão do meu amor irrestrito por Arthur Penn. Sua decadência vertiginosa é uma das coisas que mais me entristecem na história do cinema de Hollywood, mas esta é outra história, que um dia vou ter de abordar num post específico sobre ele.) Com o tempo, Gene Wilder foi incorporado ao team de Mel Brooks e fez comedias antológicas – Banzé no Oeste e O Jovem Frankednstein, as duas de 1974. O próprio Gene virou diretor e seguiu a vertente de Mel Brooks, parodiando gêneros clássicos (o latin lover e o filme de detetive). Não creio que tenha sido um grande diretor, mas sempre me diverti com Gene Wilder e tinha, não sei, uma espécie de carinho por ele. Sempre achei comovente a história de Gene e Gilda Radner, a atriz por quem ele era apaixonado. Gilda morreu de câncer e Gene surtou. Parou com o cinema. Sempre achei, babaca que sou, que fosse uma daquelas histórias de amor bigger than life, como a de Giulietta Masina, que não resistiu à morte de Fellini. Foi aí que comprei em Nova York e li o livro de Gene Wilder, Kiss Me Like a Stranger. Foi um choque! A natureza humana é sempre muito mais complexa que a gente pensa. Sabe-se lá por quê – por que ele ia continuar vivendo e ela ia morrer -, Gilda desenvolveu uma relação de ódio com Gene na sua fase terminal. Beijava qualquer estranho que a visitasse no hospital, tinha palavras de carinho para todas as pessoas, mas o anjo virava demônio quando ficava sozinha com ele.Não admitia ser tocada por Gene, agredia-o, daí o título do livro em que o viúvo exorciza essas lembranças. Não sei o que mais me entristece nestes casos. Se é o fato, em si, ou se a necessidade que Gene teve de expor seu drama, ficando nu, emocionalmente, para seus leitores. Nada disso tem a ver com O Maior Amante do Mundo nem com O Irmão Menos Esperto de Sherlock Holmes. Como fã de carteirinha do mestre da dedução criado por Conan Doyle (amo o filme do outro Wilder, Billy, A Vida Íntima de Sherlock Holmes), me divirto muito com as trapalhadas de seu irmão. Mas agora não consigo mais ver Gene Wilder como antes. Seu estilo de humor possui agora, para mim, uma amargura que antes não percebia.