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Luiz Carlos Merten

07 Janeiro 2008 | 11h45

Fui ver ontem ‘Coisas que Perdemos pelo Caminho’, primeiro filme da diretora dinamarquesa Suzanne Bier nos EUA. Não sei se vocês conhecem a Suzanne, ou se lembram dela, mas Suzanne tem, como se diz, o physique du rôle de uma tremenda gostosa. É linda! O curioso é que ela faz esses filmes barra-pesadas sobre gente que não dá certo na vida. ‘Brothers’, ‘Depois do Casamento’ e agora o ‘Coisas’. De cara, ficamos sabendo que o marido de Halle Berry, o David Duchovny, morreu. Na hora do enterro, ela se lembra que não chamou o melhor amigo do marido, Benicio Del Toro. Ele faz um drogado. Só Duchovny ainda não havia desistido do Benicio. Seguem-se, praticamente, dois filmes. Um sobre a viúva que acolhe o amigo na casa e inicia uma relação complicada, de atração e repulsão, por ele. O outro, sobre o processo não menos difícil de recuperação do drogado. E tem ainda o casal de filhos da Halle, que sentem a falta do pai e identificam no Benício o pai substituto. Confesso que fui ver por obrigação, porque vejo todos os filmes etc. Nem sabia que era da Suzanne Bier. Tinha até uma certa má vontade, pois acho que a Halle Berry desandou depois do Oscar. Tirando o ‘X-Men’, mas ali não é ela (ou só ela), nunca vi ‘oscarizada’ com um feeling mais apurado para filme ruim. Bem – a verdade é que temos também a Nicole Kidman. Não acho ela chata, como alguns de vocês escreveram – nem poderia; Nicole é a Satine de Baz Luhrmann em ‘Moulin Rouge’ e só isso lhe dá cadeira cativa nos filmes da minha vida -, mas que ela também tem feito porcaria demais, ah, isso é um fato. Como se chamava aquele filme horroroso do Sydney Pollack, ‘A Tradutora’? Naquele, Nicole não afundou sozinha, porque era difícil saber quem era pior, ela ou outro vitorioso do Oscar, Sean Penn, que agora vai presidir Cannes… De volta a Halle Berry e a ‘Coisas’. A personagem tem alguma coisa (ou muito…) daquela outra, também confrontada com a morte, que deu o Oscar de melhor atriz a Halle, em ‘A Última Ceia’. O personagem de Benício também tem alguma coisa de ’21 Gramas’, que o Guillermo Arriaga escreveu para Alejandro González-Inárritu. E a verdade é que não apenas Halle, mas também ele, numa caracterização pouco simpática, me pareceram – ambos – muito bons. O próprio filme, com sua multiplicidade de temas, me pareceu meio descosido (ou irregular), com partes bem melhores do que outras. ‘Coisas’ tem mesmo este lado ‘Frankenstein’, essa mistura de ‘A Última Ceia’ com ’21 Gramas’ e outros filmes que vocês poderão identificar… Mas gostei de ver o trabalho da Suzanne Bier. Me pareceu intenso e, mesmo inconclusivo, aqueles personagens ficaram comigo. Vale um regular com +.