Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Clint e Danny, ‘enrolados’

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

Clint e Danny, ‘enrolados’

Luiz Carlos Merten

07 Janeiro 2011 | 11h57

Eu mesmo ando me estranhando. Ontem não acrescentei nenhum post. Meu colega João Luiz Sampaio me cobrou agora há pouco. A verdade é que tenho feito muitas matérias no dia a dia do ‘Caderno 2’, o que, somado às cabines, não tem me deixado muito tempo. Para complicar, embarco segunda para Paris, onde vou ser jurado de um festival online promovido pela Unifrance. Enviaram-me DVDs com cópias de onze filmes que estou tendo de assistir. Mas deixem-me dar uma geral. Na capa de ontem do ‘Caderno 2’, com a entrevista de Julie Bertucelli, diretora de ‘A Árvore’, incluí um texto sobre o que me parece uma tendência desse início de ano. Há muita gente falando sobre a vida após a morte e o próprio Woody Allen, num filme do ano passado., ‘Você Vai Encontrar o Homem de Seus Sonhos’, não deixa de tratar do assunto em chave paródica. Clint Eastwood é o mais denso. Ele investiga o que ocorre após a morte em ‘Além da Vida’, mas, ao contrário de filmes como ‘Chico Xavier’ e ‘Nosso Lar’, não faz proselitismo espírita. Trata do asssunto por meio de três personagens – a jornalista, racional e cética, que tenta entender o que houve com ela no período em que esteve morta, afogada no tsunami; o garoto que tenta se comunicar com o irmão morto brutalmente; e o vidente, ou médium, que pode fazer a ponte entre vivos e mortos, mas está cansado dessa comunicação. O que para os outros é um dom – e, para seu irmão, uma máquina de fazer dinheiro -, para ele é maldição. Todos esses personagens passam por experiências transformadoras e Clint, na real, mesmo quando encara o assunto racionalmente – a cientista que observa que os relatos dos que voltaram são sempre coincidentes -, está mais interessado em resolver os problemas dos vivos. Gostei do meu texto na capa de hoje do ‘Caderno’, A Eternidade segundo Clint. Margarida Oliveira me ligou cumprimentando – ela gostou também – e até disse que vai ver correndo, na primeira sessão. Não conto para me gabar, mas porque confesso que coloquei muito de mim naquele texto e acho bacana esse retorno. Espero que tenham lido a entrevista com Julie Bertucelli e o texto sobre ‘A Árvore’ e também o abre de hoje do Clint. Ontem à tarde, corri à Fox – pela segunda vez nesta semana; na terça, havia visto ‘Incontrolável’, a nova parceria de Denzel Washington com Tony Scott – para assistir a ‘127 Horas’. Dividi a sala com Sérgio d’Ávila e a mulher, Tetê, da ‘Serafina’ e do ‘Saia Justa’. Sofremos juntos assistindo ao novo e angustiante filme de Danny Boyle. Até pelo trailer, sabia que era a história de um sujeito que cai num buraco, mas achava que era algo no estilo do drama dos mineiros chilenos. É muito mais punk. Quando o personagem de James Franco cai, uma pedra esmaga seu braço e o prende na rocha. Lá pelas tantas, o personagem, desesperado, encara a possibilidade de ter de arrancar o braço com os parcos recursos de que dispõe (um canivete sem fio). Não sei se gostei do filme, não sei se gosto de Danny Boyle, embora a relação dos irmãos tenha me impressionado muito em ‘Quem Quer Ser Um Milionário’ e eu adoro aquele final à Bollywood. Aqui também não dá para desgrudar o olho, porque esse cara, o James Franco, é muito bom (eu acho), mas se preparem porque é hard. Jantamos ontem, Dib Carneiro e eu, com Gabriel Villela e Cláudio Fontana, que chegaram da Europa, onde passaram o réveillon (na Bélgica e em Luxemburgo). Gabriel me trouxe um monte de revistas de cinema, que mal tive tempo de folhear, mas adorei. De cara, a primeira que vi, acho que ‘Cinéaste’, dá muito espaço a ‘Enrolados’, a nova e encantadora animação da Disney, sob a direção artística de John Lasseter. Ele faz a diferença. Sinceramente, respeito quando coleguinhas – né, Giannini – selecionam ‘Viagem de Chihiro’ entre os filmes da década, mas sou muito mais as animações da Pixar. Entendo perfeitamente quando Tarantino escolhe ‘Toy Story 3’ como o filme do ano passado, mas, para mim, nada supera ‘Ratatouille’, que é o meu cult, substituindo ‘Procurando Nemo’. (É a minha cena preferida de ‘Jogo de Cena’. A entrevistada fala em ‘Nemo’, diz que chorou vendo a animação. Eduardo Coutinho desconversa, faz pouco, e ela diz que ele é ‘meio’ comunista. Aquilo é genial.) De volta a ‘Rapunzel’, perdão, ‘Enrolados’, o filme, na melhor tradição da Disney, tem dois personagens secundários avassaladores. O cavalo, que persegue o herói – o príncipe do conto dos irmãos Grimm vira um ladrão -, age como um cão farejador e é muito engraçado, na tradição de Babe, o porquinho, e há um camaleão hilário. Ele passa pelo filme sem emitir um som, mas, como o Sebastião de ‘A Pequena Sereia’, é a consciência de ‘Enrolados’. Suas expressões e o que ele faz com o dedinho não estão no gibi. Já vi ‘Enrolados’ duas vezes, com plateia, pagando. Quando a garotada, no final, aplaudiu, não resisti e aplaudi junto.