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Luiz Carlos Merten

31 Maio 2010 | 09h56

Estou na redação do Estado, saindo para assistir ao documentário ‘Ao Sul da Fronteira’, de Oliver Stone. O dia hoje vai ser longo. Stone dá uma coletiva no meio da tarde, uma master class na FAAP e, no fim da tarde, espero ter um encontro (mini) com ele. Ainda por cima, é segunda, dia de reunião de pauta do ‘Caderno 2’, e é 31 de maio, uma data especial, porque hoje Clint Eastwood completa 80 anos. Tenho posts pendentes, que quero fazer, sobre ‘Sex and the City 2’, o ó, e ‘Mademoiselle Chambon’, que amei. Não sei quando, em que hora, conseguirei fazê-los, mas o de Clint sai agora, porque não pode ficar para depois. Ator, diretor, ‘astro’. Clint teve uma trajetória singular. Ele começou como caubói, na TV, fazendo Rowdy Yates na série ‘Couro Cru’ (Rowhide). Poderia ter permanecido na telinha, como outros caubóis da época, cujas carreiras não foram longe, mas Eastywood teve a sorte de chamar a atenção de Sergio Leone, que precisa de um ator norte-americano ‘duro’, para interpretar seu personagem do ‘Estranho sem nome’. Os três westerns de Leone com Clint deram sua carta de nobreza a um gênedro que era considerado sub, o spaghetti western. Leone transformou o western em ópera, reavaliou o código dos mocinhos. O western nunca mais foi o mesmo depois de ‘Por Um Punhado de Dólares’, ‘Por Uns Dólares Mais’ e ‘Três Homens em Conflito’. Transrformado em astro internacional, Clint regressou a Hollywood e aí teve o seu oputro mentor, Don Siegel, um diretor B que, nos anos 1960, conseguiu ascender à produção A. Sigel fez cinco filmes com Clint – ‘Meu Nome É Coogan’, ‘Os Abutres Têm Fome’, ‘O Estranho Que Nós Amamos’, ‘Perseguidor Implacável’ e ‘Fuga Impossível’. Um western urbano, outro tradicional (mas nem tanto), um drama psicológico, um thriller violento e um filme de cadeia. Em Leone e Siegel, Clint encontrou os melhores professores do mundo. Um europeu que subvertia os códigos de um gênero muito popular, um norte-americano que encarnava todas as virtudes da montagem clássica, mas que também gostava de subvertê-la. Mesmo assim, pouca gente botou fé quando Clint estreou na direção em 1971, com ‘Pervera Paixão’. O filme era o ‘Atração Fatal’ avant la lettre. Ele fazia DJ, Jessica Walter lhe pedia que tocasse ‘Misty’ para ela e entrava em sua vida ‘dressed to kill’. O segundo filme foi um western, pegando carona em Leone – ou foram os exibidores brasileiros que pegaram, batizando ‘high Plains Drifter’ como ‘O Estranho sem Nome’. O resto é história. Clint fez 50 filmes como ator e/ou diretor, ganhou dois Oscars de direção (por ‘Os Imperdoáveis’ e ‘Menina de Ouro’). O western foi sempre uma paixão e ele refez ‘Os Brutos Também Amam’ à luz de Leone em ‘O Cavaleiro Solitário’. Machista, republicano, reacionário – colaram-lhe todos os rótulos. Mas em ‘Bronco Billy’, naquele circo ambulante cuja tenda é feita de uma bandeira norte-americana remendada, há espaço para todos, até para o desertor do Vietnã. Clint, melômano, revisitou Charlie Parker num grande filme de jazz (‘Bird’), filmou o Exército como poucos diretores contemporâneos (Kubrick, Spielberg e Malick). Mas eu ouso dizer que se tivesse de escolher, aqui, agora, um filme que ele dirigiu – como ator seria ‘O Estranho Que Nós Amamos’ -, seria ‘Coração de Caçador’. Clint reconstituiu as pegadas de John Huston, filmando ‘Uma Aventura na África’. Meu amigo (e mentor) José Onofre amava Clint Eastwood. O Zé não viveu para ver Clint transformado em unanimidade, aos 80. O TCM lembra hoje a data exibindo três filmes a partir das 10 da noite – ‘Perrseguidor Implacável’, “Magnum 44′ e ‘Sem Medo da Morte’. Serão seguidos, às 3h40 (da madrugada) pelo especial ‘Eastywood por Eastwood’. Grande Clint – que a idade te caia bem e permaneças jovem como Manoel de Oliveira. Aos 101 anos, o autor português não cessa de me – de nos – surpreender. Clint seguiu muitas trilhas ao longo de sua vida e carreira. Se adentrar pela de Manoel, tem mais 20 e tantos anos para nos maravilhar.

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