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Luiz Carlos Merten

20 Maio 2008 | 07h24

CANNES – Assisti agora de manhã ao novo Clint Eastwood, ex-‘The Changelling’ e agora ‘The Exchange’, com Angelina Jolie. O filme baseia-se numa história real, sobre esta mulher cujo filho é seqüestrado em Los Angeles, em 1928, e ela leva uma batalha contra a burocracia e a polícia corrupta, que lhe impõe outro garoto como filho – para mostrar resultados perante a opinião pública – e, quando ela reage, trata não apenas de desmoralizá-la, mas também de encarcerá-la num manicônio judiciário, como louca. De certo forma o filme é a retomada de ‘Sobre Meninos e Lobos’ (Mystic River), mas agora do ângulo da mãe, não do garoto abusado. Confesso que achei um Clint meia-boca, bem abaixo do que ele é capaz de nos dar em seus melhores momentos. Impliquei muito com uma cena. O policial que recebe uma denúncia investiga uma fazenda que parece abandonada. Clint filma seus movimentos do ângulo de um observador situado dentro de um dos compartimentos. Acontece alguma coisa para assuistar a platéia. Qual é, Clint? Isto é coisa dos anos 50, ou de filme de terror de qualidade duvidosa. A partir deste pequeno detalhe que coloca em xeque a ética da filmagem – Clint estava no Grand Théâtre Lumière durante a homenagem a Manoel de Oliveira e ouviu o grande diretor dizer que a questão autoral, num meio como o cinema, refere-se, no limite, a isso -, confesso que fui pensando a estrutura geral e fiquei um tanto decepcionado. Não é um mau filme, claro, como ‘O Silêncio de Lorna’, dos irmãos Dardenne, também não é. Mas, que Diabo!, vamos parar com tanta babação de ovo em cima de trabalhos medianos de grandes diretores. Achei importante que o Clint tenha feito este filme para retomar ‘Mystic River’, mas não deste jeito. Imagino que, sem a prestigiosa assinatura dele, ‘The Exchange’ não estaria na competição em Cannes.