Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Clint

Cultura

Luiz Carlos Merten

23 Fevereiro 2007 | 14h28

Gosto muito do escritor gaúcho Erico Verissimo, pai do Luis Fernando, que é, para mim (o pai, mais que o filho, de quem também gosto muito), um monumento da literatura brasileira. O Tempo e o Vento não é um dos meus livros de cabeceira porque a edição que tenho é a antiga, da Globo, e todos aqueles volumes terminariam por ocupar TODA a mesinha de cabeceira. Mas, enfim, Erico era maravilhoso na arte de expressar diversidade de pontos de vista. Nenhum escritor brasileiro tem a capacidade dele de criar diálogos vivos que se constituem em verdadeiros contrapontos. Acho maravilhosa aquela parte de O Tempo e o Vento em que o personagem do cético, sempre às turras com o comunista que foi lutar ao lado dos republicanos na Guerra Civil espanhola, ouve o outro falar de sua emoção quando ouviu a lendária Dolores Ibarruri, La Passionaria, em sua exortação aos soldados da República. O cínico diz que o comunista teve ali sua visão de Nossa Senhora. Me lembrei disso porque queria comentar uma coisa. Ontem, conversando com o Zanin (meu colega Luiz Zanin Oricchio, aqui do Estado), contei do impacto que foi a presença do Clint Eastwood em Berlim, na coletiva de Cartas de Iwo Jima. Mal comparando, diante do que comentei com o Zanin, sinto que tive ali minha visão de Nosso Senhor, como diria Erico Verissimo. Clint virou mito, em definitivo. Quando aquele velho (é um velho sempre jovem de 77 anos) entrou na sala, todo mundo se levantou para aplaudir. Eu nem precisei levantar – já estava de pé porque não havia mais lugar para sentar. Coisa louca. Não era só reverência. Era algo mais. Aquele velho (sempre jovem) virou referência no nosso imaginário. Tudo o que ele diz, ou faz, possui relevância. Foi lindo ver Clint manifestar sua admiração pelos mestres japoneses (Kurosawa, Kurosawa, Kurosawa) ou então dizer que tinha sido um longo caminho até que ele fizesse seu primeiro filme japonês. Essa vontade de entender o outro, de fornecer, com Cartas, um contraponto a A Conquista da Honra, humanizando o inimigo e mostrando que ele, por estar do outro lado, não deixa de ser alguém de carne e osso, com emoções e sentimentos, sonhos e desejos, só mesmo um Clint para réussir, como dizem os franceses. E a simplicidade, não vou dizer a humildade. Cada filme que Clint faz é sempre como o primeiro. O que o move é a relação de emoção que estabelece com o personagem. É uma coisa de instinto. E ele diz que nunca se aproxima de suas histórias seguro do que está fazendo. Existe sempre a busca, a novidade, a surpresa. O dia em que estiver seguro, que não tiver mais nada para descobrir com os filmes que faz, ele diz que pára. Foram 40 minutos de êxtase, os daquela coletiva. E o cara atingiu essa estatura, moral e artística, errando, fazendo muita coisa ruim. Depois disso, só posso recomendar que vejam A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, que estão em cartaz na cidade. Prefiro o primeiro (o personagem daquele índio é de uma beleza atroz), mas os dois formam um díptico, fornecendo imagens complementares. Em A Conquista da Honra você vê os soldados americanos avançando para as casamatas e tombando sob os tiros dos japoneses. Agora vê a cena do outro lado. Viu os americanos lançando chamas dentro da casamata e agora vê o soldado ardendo, até morrer. Viu o espanto da descoberta de todos aqueles cadáveres mutilados e agora vê o suicídio dos derrotados, por granada. Nenhum maniqueísmo. O mundo é complexo, feito de opostos que se chocam e/ou complementam. Clint pode ter decidido fazer Cartas num impulso, como diz, mas terminou construindo um monumento de cinema.