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Clichê, alguém falou em clichê?

Luiz Carlos Merten

20 Agosto 2010 | 11h01

Em Gramado encontrei Ivana Bentes, que integrava o júri da competição de longas nacionais. Gostei demais das decisões daquele júri que premiou ‘Bróder’ e deu o devido destaque para Jorge Durán (‘Não se Pode Viver sem Amor’), ignorando filmes que causaram comoção, mas que dispenso (‘Diário de Uma Busca’). O encontro – breve – foi bom porque a Ivana me deu um exemplar de seu novo livro, ‘Avatar – O Futuro do Cinema e a Ecologia das Imagens Digitais’, da Editora Sulina. É a reunião de dois ensaios, um dela e o outro de Erick Felinto. Ivana me disse brincando que havia ido fundo, enfiando o pé na jaca na sua abordagem sobre o filme de James Cameron. Um colega, não vou dar o nome, revelou-se surpreso por uma pensadora da academia estar se debruçando sobre um blockbuster de Hollywood. Ai, meu saco, essa gente está na idade da pedra. Sabe tudo de alta cultura, mas não tem a mínima capacidade de entender o que lhe parece ‘infantil’ (e em geral não é). É preciso inteligência, pensam que não? Tenho minhas restrições com Ivana. Até hoje não engoli direito sua polêmica sobre estética versus cosmética da fome, a propósito de ‘Cidade de Deus’ e o filme de Fernando Meirelles, para permanecer no tema, virou o avatar do cinema da retomada. Mesmo ainda não tendo lido o novo livro, porém, já gostei. O ensaio de Ivana chama-se ‘Eu vejo você – antropologia reversa em Avatar: ciber-índios, pós-cinema ou como arrancar um pensamento complexo dos clichês’. Já deu para ver que ela sacou tudo. Em dezembro, quando estreou o filme de Cameron, já escrevia no ‘Caderno 2’ e acho que também no blog. O desafio de Cameron é sempre trabalhar o clichê melhor do que qualquer outro cineasta, atribuindo-lhe significado e profundidade. Simple as that, mas, claro, complicado demais  para quem fica reduzindo as questões ecológicas e antropológicas do filme ao batido conceito do blockbuster como divertimento infantil. Isso sim é chavão.