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Luiz Carlos Merten

03 Março 2008 | 19h59

Clécio comenta que reviu ‘Cleópatra’, a versão com Elizabeth Taylor, e achou o filme esquizofrênico. A primeira parte é bem diferente da segunda, e é mesmo. Com Júlio César (Rex Harrison), na primeira metade, Cleópatra (Liz) se eleva ao plano dos deuses. Na segunda, o amor por Marco Antônio (Burton) a trai e ela é reduzida ao plano comum dos mortais. ‘Cleópatra’ é um raríssimo caso de filme de culto. Quem gosta de ‘Cleópatra’ como eu , ama o filme de paixão e o defende até de seu diretor. Joseph L. Mankiewicz conheceu o inferno durante a filmagem. Era o filme mais caro feito até então, a mídia estava enlouquecida pelo affair Burton/Taylor. E ele, um intelectual, no meio daquele fogo cruzado, tendo de administrar a pressão do estúdio, os caprichos da estrela e por aí afora. Mankiewicz pegou um tal ódio, que até o fim da vida nunca mais citou – pelo menos em entrevistas – o título da obra que criou. Referia-se sempre a ‘Cleópatra’ como ‘aquele filme’. A despeito do que pensa o diretor – Arthur Penn também não tinha uma boa avaliação de ‘Caçada Humana’ -, ‘Cleópatra’ é de uma consistência dramática exemplar e tem cenas de gênio, que carrego comigo. Depois de filmar o discurso de Marco Antônio aos romanos – Marlon Brando era o intérprete do papel – em ‘Júlio César’, no começo dos anos 50, Mankiewicz agora recua a câmera num travelling de afastamento, quando Burton começa a discursar e encerra o plano na figura do camareiro mudo de César. Toda a tragédia do filme – e de Cleópatra, a personagem – está aí. Júlio César dominava a palavra e a força, que lhe dava o poder. Marco Antônio é um homem da palavra, mas não tem a força nem o poder. Roddy McDowall, que tem a força e o poder, não domina a palavra. Isso é fundamental porque, no cinema de Mankiewicz, toda tragédia passa sempre pela palavra (assim como sua mise-en-scène se constrói no dinamismo dos diálogos). Acho a análise histórica de uma inteligência lapidar. Passo me divertindo pela entrada de Cleópatra em Roma. Aquilo é o supra-sumo do kitsch, mas era intencional; a cena termina com um piscar de olhos, lembram-se? Os outros grandes momentos de ‘Cleópatra’ são a interrogação de Júlio César diante do bronze que reproduz sua amada (‘Por que as estátuas não têm olhos?’); a crise da rainha, ao saber que Marco Antônio vai se casar com outra; a solitária corrida dele no deserto, perguntando a seus soldados se ninguém vai ajudá-lo a morrer com honra; e o travelling de afastamento na câmara mortuária, quando o romano pergunta como Cleópatra morreu e a aia responde – ‘Com tranqüilidade e dignidade, como se poderia esperar da última descendente de tão grandes reis’. A fala é repetida. Primeiro, o diálogo do romano com a aia e, depois, a voz do narrador. ‘And the roman asked…’ Quando ele termina, sobe o tema de Alex North, que é belíssimo. Aquilo é Shakespeare puro!