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Cleópatra Negrini

Luiz Carlos Merten

31 Maio 2008 | 18h17

Acabo de assistir, confesso que com um misto de fascinação e horror, a ‘Cleópatra’, de Júlio Bressane. Mesmo que dificilmente tivesse votado nele como melhor filme do Festival de Brasília do ano passado, até entendo a opção do júri pelo Bressane, mas a de melhor atriz para Alessandra Negrini uiltrapassa minha capacidade de compreensão e entendimento. Só posso acreditar que alguém, ou todo aquele júri, estivesse tirando onda conosco. Mas achei muito interessante a estilização cênica desta ‘Cleópatra’, que se traduz por meio de tableaux vivants e alguns movimentos da câmera (maravilhosa) de Walter Carvalho (com o Lula de segundo), mas o que me deixou estupefato – acho que nunca usei esta palavra antes – foi a direção de arte, uma das mais criativas e complexas não apenas da carreira de Bressane, mas de toda a história do cinema brasileiro. Contem-me – o diretor de arte de ‘Cleópatra’ ganhou o Candango da categoria? Se não, não tem remédio. Tem de chamar o camburão e meter todo aquele júri dentro dele, porque era formado por… Ofenderei as pessoas que nem sei quem eram? Delinqüentes? Mais ou menos… O que me incomodou no filme, fora a Alessandra Negrini, com seu sotaque de lugar nenhum – hilária a cena dela com Bruno Garcia, após a morte da mulher dele -, tem a ver com o próprio diretor e remete a um comentário de Claude Chabrol sobre Godard, no livro ‘Que Reste-t-Il de la Nouvelle Vangue?’, de Aldo Tassone, que comprei em Paris e li de um jato, um livro de entrevistas ao qual pretendo voltar. Um bom pretexto para esta conversa será o Festival do Cinema Francês que ocorre daqui a pouco na cidade, na Reserva Cultural (e não sei se mais em alguma sala). Chabrol diz que Godard com freqüência busca a comunicação, mas busca no lugar errado. Tenho um pouco essa sensação com o Bressane. Achei muito legal, um ponto a favor, a forma como ele incorpora aqui ‘Filme de Amor’ – recolocando o filme anterior na sua justa medida -, mas a tão decantada erudição do diretor serviu aqui somente para iluminar aspectos da ‘Cleópatra’ de Mankiewicz aos quais nunca havia prestado maior atenção. Ao mesmo tempo em que é erudito, Bressane enche o filme de bundas e recorre a um humor chancho que não me convence, embora ache que se trata de uma atitude tanto estética quanto ideológica. Bressane sempre tem um lado de chanchada, presente nas interpretações de alguns de seus atores e em certas escolhas musicais (mas não apenas nelas), e acho que esse, de certa forma, é seu manifesto antropafágico. O filme mistura Plutarco com Camões e – quem? – Lope da Vega?, e a subversão chancha me parece uma atitude intelectual ousada, mas que raramente dá certo. Eu, pelo menos, ria não porque achava inteligente, mas porque me parecia ridículo. Não é um filme que eu recomendaria para ninguém ou, então, recomendaria com reservas, como vou fazer agora. Com certeza não é perda de tempo assistir a ‘Cleópatra’. O filme fornece muito material para reflexão e, neste sentido, me parece estimulante, mesmo que não seja 100% logrado. É visualmente muito bonito e aqui não estou falando de uma beleza da imagem, uma coisa decorativa, para o olho. É uma coisa mais profunda, um conceito fotográfico e iconográfico que me fascinou. Mas a Negrini… O problema nem é a Alessandra, que não fez aquela escolha sozinha. Ali o conceito da direção tropeçou feio. E o júri de Brasília, que que é isso? Já virou folclore. Bressane vai a Brasília e, automaticamente, ganha. Vou misturar alhos com bugalhos, mas seria como se Clint, em Cannes, tivesse de ter sido, automaticamente, vencedor, sem necessidade de competir.

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