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Cultura » Claudia Cardinale, 70 anos

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Luiz Carlos Merten

14 Abril 2008 | 23h39

São quase onze da noite e eu quero me antecipar, acrescentando este post sobre Claudia Cardinale, que comemora amanhã, dia 15, 70 anos. Não sei se o espectador de hoje, o jovem internauta, tem condições de avaliar o que foi o fenômeno CC nos anos 60. Os 50 haviam visto nascer BB, Brigitte Bardot, e consolidaram MM, Marilyn Monroe, que, num certo sentido, desempenhou um papel essencial na humanização do Olimpo de Hollywood. GG, Greta Garbo, era insondável e misteriosa nos anos 30 e 40. Uma divindade, uma esfinge. Com MM, começa a humanização das grandes estrelas do cinema norte-americano, embora tenha sido preciso esperar até JF, Jane Fonda, nos 70, para vivenciar a plena humanização dos mitos de Hollywood. Jane ia a passeatas, protestava contra a Guerra do Vietnã, era gente como a gente. Na Itália, Silvana Mangano talvez tenha sido o maior mito erótico do neo-realismo, principalmente graças a ‘Arroz Amargo’, de Giuseppe De Santis. Silvana começou exuberante, com as coxas à mostra naquele arrozal. Bem mais tarde, nos anos 60 e 70, dois autores assumidament homossexuais, Pasolini e Visconti, a deserotizaram (existe a palavra?). Em ‘Morte em Veneza’, como a mãe de Tadzio, Silvana, filmada no meio daquelas palmas, as flores,ao entrar no Grand Salon do Hotel des Bains, é um devaneio de Visconti, uma figura etérea, destituída de carnalidade. Na continuidade da jovem Silvana, vieram Gina Lollobrigida e Sophia Loren. E, depois, Claudia Cardinale. Há controvérsia quanto aos seus 70 anos, pois eu me lembro de ter lido certa vez, sim, que ela era de 5 de abril, mas de 1939, nascida na Tunísia, de pais italianos. Claudia teve seu Pigmalião, e ele foi o produtor Franco Cristaldi, da Vides, que fez dela uma estrela e, depois, sua mulher. Um de seus primeiros filmes importantes foi ‘Aquele Caso Maldito’, de Germi, e logo ‘Os Eternos Desconhecidos’, de Monicelli. Em 1959, quando rodou ‘Rocco e Seus Irmãos’, Visconti já devia estar de olho em CC, prevendo os grandes papéis que lhe daria em ‘O Leopardo’ e ‘Vagas Estrelas da Ursa’. Bruno Villiers, em seu livro/álbum sobre o grande diretor, lembra de Visconti na cena da briga na rua, após a vitória de Simone, em ‘Rocco’. O cineasta gritava, ao megafone – ‘Non ammazzare la Cardinale’. Claudia teve grandes papéis com Zurlini (‘A Garota com a Valise’), Bolognini (‘O Belo Antônio’, ‘Caminho Amargo’ e ‘Desejo Que Atormenta’), Fellini (‘Oito e Meio’) e Leone (‘Era Uma Vez no Oeste’). Até Hollywood se rendeu ao charme de Claudia e ela fez ‘A Pantera Cor de Rosa’, com Blake Edwards, e ‘Os Profissionasis’, com Richard Brooks. Claudia filmou no Brasil, na favela, ‘Uma Rosa para Todos’, com direção de Franco Rossi. Voltou ao País para fazer na Amazônia, com Werner Herzog, o cult ‘Fitzcarraldo’. Foi uma dinâmica heroína de folhetim em ‘Cartouche’, de Philippe De Broca. Divorciada de Franco Cristaldi – não sei se alguma vez casou-se com ele no papel -, virou musa de um cineasta menor, Pasquale Squittieri. Ao longo de 50 anos de carreira, acho, sinceramente, que poucas atrizes conseguem exibir um currículo tão impressionante. Digo ‘tão’ porque ‘mais’ me parece impossível. Só com Visconti foram quatro filmes – além dos citados, fez também ‘Violência e Paixão’ -, mais quatro de Bolognini – além dos citados, também ‘Libera, Amore Mio’. Claudia contracenou com Alain Delon, Jean-Paul Belmondo, Marcelllo Mastroianni, Burt Lancaster etc. 70 anos já! Mas pode ser que sejam ‘só’ 69. Não importa. Claudia Cardinale faz parte do meu, do seu, do nosso imaginário. E sempre foi linda, esta mulher. E ainda tinha aquela voz rouca! Vi-a no palco, em Paris, representando, em francês, ‘La Locandiera’. Cheguei pertinho dela quando foi homenageada no Festival de Berlim. Falei-lhe de Luchino Visconti, meu ídolo. Ela sorriu. Disse que éramos muitos a amá-lo. Não direi que ela fosse sempre grande atriz, mas com Visconti e Bolognini, foi. É esta atriz que celebramos daqui a pouco, no aniversário da mulher

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