Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Claude Miller

Cultura

Luiz Carlos Merten

19 Abril 2012 | 12h14

Estou chocado. Perdi o bonde da história e não sabia que Claude Miller havia morrido. Vocês também não me cobraram nenhum post sobre ele. Onde estava eu? Havia estranhado o anúncio de Cannes de que o festival prestaria uma homenagem a Miller. Pensei comigo – que homenagem? A Palma de Ouro honorária seria exagerada e a exibição de ‘Thérèse Desqueyroux’ no encerramento já é, em si, uma homenagem. Tive alguns encontros com Miller, além de entrevistas por telefone. Encontrei-o em Cannes, Paris e no Rio. Era discreto, tinha a fala mansa e eu adorava ouvir suas histórias sobre François Truffaut e Jean-Luc Godard, de quem foi assistente, mas por uma questão de temperamento, como diretor, ele se sentia mais próximo do primjeiro. Miller provocou grande impacto com seu longa de estreia, ‘La Meilleure Façon de Marcher’, nos anos 1970. O monitor brutamontes de uma colônia de férias vive exibindo sua virilidade para os garotos e humilha colega de temperamento mais delicado e que, por isso mersmo, vira gay aos olhos dos meninos. Mas há um baile à fantasia e vem uma reviravolta final. Patrick Dewaere faz o protagonista. Era uma das grandes promessas do cinema da França na épóca, mas morreu prematuramente. Miller fez depois ‘Garde a Vue’, que no Brasil se chamou ‘Cidadão sob Custódia’, um policial que opunha Lino Ventura a Michel Serrault. Vieram mais tarde ‘Mortelle Randonée’, Ronda Mortal, e os filmes com Charlotte Gainsbourgh, ‘L’Effrontée’ e ‘Ladra e Sedutora’, com roteiro de Truffaut. Um de seus últimos trabalhos lançados nos cinemas, pelo menos no Brasil, foi ‘Segredo em Família, foi assim que se chamou ‘Un Secret, não? Foi um filme que me tocou muito, pelo que me pareceu a originalidade no enfoque do Holocausto, com base no livro de Philippe Grimbert sobre a responsabilidade dos próprios judeus perante os crimes do nazismo. Aquela mulher e mãe que pune o marido adúltero entregando-se com a cria à máquina de matar de Adolf Hitler… Fiquei tão impressionado. Miller era judeu, queria abordar o Holocausto, mas como me disse demorou a achar a história com o tipo de espessura dramática que lhe interessava. Quando escrevi, antes, que a Palma de Ouro de carreira seria demais para ele, isso não significa que não o achasse um diretor interessante e, mais do que isso, inteligente (apesar de ‘La Classe de Neige’, seu fiulme de que menos gosto, tratando de paternidade e paranoia infantil). Estou muito curioso para ver o que Miller fez com ‘Thérèse Desqueyroux’, que já deu origem a um filme de Georges Franju, de 1962. A culpa e a redenção são os temas de Mauriac, um autor cujo catolicismo se manifesta nos escritos, por meio dos dilemas morais que o dilaceravam. Engraçado é que, nos encontros com Miller, ele nunca me falou nesse desejo de adaptar Mauriac. Deve ter vindo depois de ‘Un Secret’ e Philippe Grimbert, mas, para mim, faz sentido. Miller era pouco mais velho que eu. Tinha 70 anos (nasceu em 1942). Em 2009, co-dirigiu com o filho, Nathan, ‘Je Suis Heureux Que Ma Mère Soit Vivante’.