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Cultura » Claire Denis e Jodorowsky

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Luiz Carlos Merten

14 Maio 2007 | 18h26

Igor pede notícias de Dib Carneiro, seu velho amigo de São José do Rio Preto – é o editor do Caderno 2 (o Dib, não o Igor). Caio diz que minha piada do papa é mais velha do que meu blog e eu deduzo que esse cara é masô total – ele não desgruda do blog. Volta e meia dá as caras. E tem o Régis que me pede para falar de Claire Denis e Alejandro Jodorowsky. Entrevistei a Claire há dois ou três anos (acho que três) quando Vendredi Soir passou no Festival do Rio. Naquele mesmo ano, havia visto no Beaubourg, em Paris, após o Festival de Cannes, uma exposição com instalações da Claire. Coisas prosaicas, bem domésticas, que ela fotografava ou filmava – cozinhas, salas, banheiros, sempre com algum tipo de intervenção. Não me impressionei muito com o trabalho de artista plástica da Claire, mas gostei bastante de seus filmes. Beau Travail narra uma histópria sobre a Legião Estrangeira. É um filme visualmente muito bonito, mas a Claire nega que seja esteticista. Diz que só tem olho para a beleza quando ela serve à história. Antes de ir adiante, quero acrescentar que ela tem a maior curiosidade pelo Brasil. Seu avô, pai de sua mãe, era brasileiro, de Belém do Pará, cidade que ela morre de vontade de conhecer. Enfim, comentei uma coisa com Claire. Beau Travail tem toda aquela fascinação pelos corpos dos homens e pela violência física. Ela me disse que era uma adaptação (livre) de Herman Meville, o autor de Moby Dick, só que o livro era outro – Billy Budd, que já havia sido filmado por Peter Ustinov com Terence Stamp (antes de O Colecionador e Teorema, bem no começo da carreira dele). Retruquei que achava que o Meville dela era outro, Jean-Pierre, o grande dsiretor de policiais e filmes de gângsteres à francesa. Não sabia, mas Claire é louca pela estilização e teatralidade do Melville. Viramos almas gêmeas. E só escrevendo, agora, me dou conta de que Vendredi Soir, a história dessa mulher presa no trânsito e que fica louca por causa de um cara que vê, en passant, tem a ver com o filme da Lina Chamie a que vou assistir em Cannes, A Via Làctea, na Semana da Crítica. Comento depois. Sobre Jodorowsky, quero dizer que surtei ao ver Santa Sangre, o mais original de todos os remakes (ou apropriações) de Psicose. A história daquele cara que vira a própria mãe é uma coisa de uma morbidez e de um fascínio que me deixaram louco. Vi depois os cults de Jodorowsky – El Topo, Fando e Lis, A Montanha Mágica -, dei uma espiada nos quadrinhos dele com Manara, li o romance Quando Teresa Brigou com Deus (que recomendo) e li o que pude sobre a parceria do diretor com Arrabal no chamado ‘teatro de pânico’. Jodorowsky é uma personalidade e tanto. Nasceu no Chile, exilou-se na França, filmou no México. É esotérico até a raiz dos cabelos. Recebi um em-mail no começo do ano com a programação do CCBB e estava lá anunciado um ciclo do Jodorowsky. Ele próprio viria ao Brasil para ler cartas de tarô (o que adora). Tomara que venha! Recomendo que dêem uma olha no site dele. Está lá escrito que ele foi menino prodígio e é visionário por causa do nome. Dentro de Alejandro Jodorowsky estão as letras que compõem ‘ojo de oro’.