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Luiz Carlos Merten

10 Fevereiro 2007 | 21h58

BERLIM – Gosto de The Good Shepherd, mas a coletiva de De Niro foi decepcionante. Havia um monte de coisa para discutir, mas ele foi esvaziando o proprio debate com respostas que me deixaram em duvida quanto ao conceito do filme. Ou entao, vou ter de bancar o arrogante – o meu filme, o que construih na cabeca, eh melhor que o dele. Ao contar a historia da CIA, De Niro nao quis criticar a agencia nem a geopolitica americana. Nem mesmo a ligacao obvia do seu novo filme como diretor com o anterior (A Bronx Tale, outra historia de familia) nao tem muito a ver, segundo ele. De Niro fez o filme porque gostou do roteiro, porque algumas cenas o perseguiam e ele queria coloca-las na tela, com a cumplicidade de um elenco que escolheu a dedo. E soh. Soh? No inicio, era um projeto de Francis Ford Coppola, mas desde que o assumiu, hah 9 anos, De Niro com, certeza teve tempo de pensar bastante no filme que queria fazer. Deveria te-lo defendido de forma menos burocratica, ou mais comprometida. Espero que a entrevista com ele, amanhah (domingo) seja mais interessante. Jah eh quase 1 hora da madrugada em Berlim, mas se estou postando eh porque nao queria deixar para amanhah o relato de uma experiencia que tive agora aa noite. Jah havia visto Cartas de Iwo Jima no Brasil e nao quis comprometer minha noite revendo o filme que estreia sexta-feira no Brasil (e poderei assistir de novo, ao voltar). Escolhi outros programas. Vi O Milagre de Anne Sullivan na retrospectiva de Arthur Penn (maravilhoso) e, como sobrava tempo, quis ver mais alguma coisa. Quase todas as sessoes estavam esgotadas. Sobravam dois ou tres filmes com lugares. Nao olhei nada, direcao nem elenco, nem mesmo a mostra a que pertenciam estes filmes. Escolhi, pelo titulo, It. Que tonto! Nao me passou pela cabeca que esse it era aquele algo mais que certas pessoas possuem e as torna irresistiveis. Pode ser uma qualidade da mente, mas em geral eh uma atracao fisica. Quem definiu o que o eh it foi Elinor Glyn e o filme em questao era uma antiga producao da Paramount, de 1926-27, dirigida por Clarence Badger e estrelada por Clara Bow. Soh depois vi que o programa integrava a mostra City Girls, que forma a segunda retrospectiva de Berlim em 2007 (apos a de Penn, que recebe seu Urso de Ouro de carreira). Passei duas horas de puro encantamento. Adoraria que Leon Cakoff levasse It para a Mostra de Sao Paulo e levasse com a copia a pianista holandesa Asta Nils (preciso checar o nome; fui cumprimenta-la e ela propria me disse; foi o que entendi, nao sei se eh assim que se escreve). O acompanhamento de piano, ao vivo, jah faz parte do resgate desses classicos, em todo festival que se preze. Classicos? Nao sei se It merece a classificacao, mesmo que se trate de uma joia do genero comedia frivola. Clara Bow faz a garota que tem o it e conquista o patrao, dono da loja de departamentos em que ela trabalha. Poderia ser uma tola historia de Cinderela, mas eh uma delicia pela riqueza das observacoes, pela simpatia do galah Antonio Moreno e, claro, por Clara Bow. It, pela quantidade de quiprocos e mal-entendidos, deveria ser erigido em Biblia dos escritores de telenovelas (se eh que jah nao eh). Todas as falsas ingenuas da tela devem alguma coisa a Clara, aa sua malicia e inteligencia. Foi ela quem inventou o pretinho basico (cortando um velho vestido para criar um novo modelo e poder jantar no Ritz) e foi Clara quem, inventou a frase `Diamonds Are Girls Best Friends` (mesmo que nao a diga exatamente dessa maneira). Ateh o diretor Clarence Badger foi uma surpresa para mim. Sergio Augusto e Ruy Castro devem saber quem foi. Eu vou investigar. Nao tinha registro de sua existencia, mas agora devo a ele e a um filme que tem 80 anos um de meus grandes momentos aqui na Berlinale de 2007.

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