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Luiz Carlos Merten

07 Maio 2009 | 08h58

PARIS – Já fiz ontem uma primeira rodada pelas livrarias que adoro frequentar aqui em Paris, todas na área do Quartier Latin, menos uma no Boulevard Bonne Nouvelle, próxima ao Grand Rex, onde assisti a ‘Star Trek’. Já estou namorando alguns livros/álbuns sobre John Huston, George Cukor e Luchino Visconti. Nem saem caros, pois já estão em oferta, pela metade do preço e até menos. O problema é o peso. Ainda vou para Cannes e não dá para ficar carregando todo esse peso para lá e para cá. Além do mais, arrisco-me a pagar caro por excesso de bagagem. Agora pela manhã, fui à Gilbert Jeune, esquina do Boulevard Saint Michel/rue de la Huchette, onde fica o hotel em que estou hospedado. Fiquei namorando mais livros. De cara, topei com um ‘Canções de Amor’, selecionadas por Jeanne Moreau, que assina o belo texto de abertura, que li, emocionado. Jeanne, que também é cantora, conta que sua amizade com François Truffaut foi entreamada por canções. Ela lembra que ‘Tourbillon’ surgiu em 1954, quando se separava do pai de seu filho Jerôme. A separação foi ‘amicale’, mas nem por isso menos dolorosa e os versos da música (‘On s’est perdus de vus’) calavam fundo. Virou uma de suas músicas preferidas. Anos mais tarde, ela cantava ‘Tourbillon’ para Truffaut no set de ‘Jules et Jim’. Virou a canção do filme, que Truffaut fez com que Jeanne cantase em cena. ‘Tourbillon’, o turbilhão da vida, é, desde então, a música que acompanha Jeanne Moreau. Ela conta que até hoje encontra jovens e idosos que, na rua, espontaneamente, cantam os versos de ‘Tourbillon’ para ela. Folheei o livro com as canções de amor. “Que c’est triste Venise’, ‘Je ne Regrette rien’, ‘L’amour, École Bouissonnière’. Não sei de vocês, mas essas canções fazem parte de minha vida. Lembrei-me do privilégio que foi entrevistar Jeanne Moreau. Todos aqueles grandes filmes… Mal havia acabado de folhear ‘Chansons d’Amour’, como o filme de Christophe Honoré – o livro de apenas 6 euros é lindamente ilustrado -, e já estava com o ‘Citizen Cannes’ de Gilles Jacob na mão. É um livro de memórias do presidente do maior evento de cinema do mundo, o Festival de Cannes. Chama-se ‘La Vie Passera comme um Rêve’, a vida passará como um sonho, e ganhou esse acréscimo de ‘Cidadão Cannes’. Gilles Jacob conta tudo, a história biológica e a ‘cinéfila’, como diz. Tentem pesquisar na internet. Podem ser que encontrem alguma coisa sobre o livro, especialmente sobre o capítulo que ele intitulou ‘Amarcord’, Je me souviens, Eu me lembro. Gilles Jacob lembra-se de tudo, a despedida de Jeanne Moreau para Marco Ferreri, a mesma Jeanne Moreau perguntando a Jane Campion, no ano do cinquentário de Cannes, quem recebera a Palma das Palmas, prêmio especial que o festival outorgou a um autor que nunca vencera o troféu (escolhido somente entre vitoriosos). As mulheres de Bergman foram receber a honraria por ele, incluindo a filha, Linn. São tantas lembranças, tantas histórias. Gilles Jacob lembra-se do riso cristalino de Jane Fonda quando conversaram e ele citou o dossiê do FBI de sei lá quantas mil páginas sobre ela. Jane, a subversiva. Para Jacob, um poeta, subversiva ela é, até hoje, por ter aqueles olhos.