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Luiz Carlos Merten

08 Dezembro 2010 | 15h30

Nunca fui fã de Darren Aronofsky. Sei que tem gente que adora os filmes dele, mas, particularmente, achava que o cara vinha rolando ladeira abaixo desde ‘Réquiem para Um Sonho’. Nunca minimizei o fato de ele ser casado com Rachel Weisz e conseguir segurar aquele mulherão. Algum mérito Aronofsky tinha de ter, se não exatamente na arte, na vida. Pois agora me rendo. Ele finalmente encontrou o tema certo para seus delírios visuais. Antes, eu tinha a impressão de que o diretor criava histórias ajustáveis a seu estilo visual. E ele não me convencia. ‘A Fonte da Vida’, ‘O Lutador’. Aqui, é a história que pedeo delírio. Olhava Natalie Portman na tela e tinha a impressão de estar assistindo à vencedora do próximo Oscar. A Academia de Hollywood nem é louca de não indicar Natalie, se bem que ela vai ter uma concorrente forte na Annette Bening de ‘The Kids Are Alright’, que tem aquele título no Brasil, como é mesmo?, ‘Eu, Minhas Mães e Meu Pai’, acho que tem alguma coisa sobrando aí. O filme de Lisa Cholodenko é bom, mas o de Aronofsky é melhor. Fiquei siderado desde o começo, que é certamente uma das coisas mais belas e impressionantes que vi ultimamente na tela. Natalie Portman dança ‘O Lago dos Cines’, surge a ameaçadora encarnação do mal. Nunca havia me colocado a questão, nem em musicais célebres – como se filma a dança, como se faz o espectador compartilhar a vertigem do movimento? O começo de ‘Black Swan’, Cisne Negro, é maravilhoso e, de cara, coloca a gente na essência do drama. É um sonho, um pesadelo. Filha de uma bailarina que desistiu da carreira para tê-la, Natalie é uma artista promissora que se esforça para ser a escolhida numa nova versão de ‘O Lago dos Cisnes’, dirigida e coreografada por Vincent Cassel. Ele lhe diz que Natalie só será grande se conseguir vencer sua pior inimiga, e é ela mesma. É o tema do filme. A relação de Natalie com a mãe evoca ‘Réquiem para Um Sonho’, mas o centro do filme é a relação de Natalie consigo mesma, sua insegurança, seu medo de assumir a própria sexualidade, de se soltar, no palco como na vida. Talvez eu exagere, mas fiquei em transe especialmente no terço final de ‘Black Swan’, que se passa quase todo na mente enferma de Natalie, o que ela acha que está ocorrendo, o que está fazendo. Nem filme de suspense me deixou naquela excitação. Mal comparando – são filmes diversos, mas ambos bons, senti a mesma angústia vendo ‘A Rede Social’, de David Fincher, que é um filme sobre o horror contemporâneo (das relações interpessoais, da competitividade, da juventude sem parâmetros). Vi ‘O Cisne Negro’ – vai ser chamar assim? – com o coração na mão, aterrado, num medo sem fim. Minha catarse foi sair do Lincoln Center para aquela Nova York gelada e ventosa – chorando. Puta filme. E não ganhou em Veneza. Esses festivais são uma m… Aronofsky teve seu Leão de Ouro por um filme que não merecia. Preparem-se.