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Luiz Carlos Merten

15 Junho 2008 | 12h50

Como já contei, entrevistei ontem o Leonardo Gavina, que segue adiante com o projeto do Cinesul, um dos maiores (o maior?) evento de cinema íbero-americano do País, que Ângela José e ele iniciaram no começo dos anos 90. É a 15ª edição, a Ângela morreu em março do ano passado e o Leonardo segue adiante com este sonho de um evento de integração do cinema latino-americano. O Cinesul começou como uma pequena mostra, um encontro do Mercosul, virou festival latino e hoje é ibero-americano, num reconhecimento de que a Espanha, principalmente, é parceira de boa parte do cinema de língua espanhola que se produz hoje na América Latina (e até do de língua portuguesa). O Cinesul deste ano começa amanhã e eu pretendo ir ao Rio, nem que seja no fim de semana que vem, para assistir a algunas filmes de Leopoldo Torre-Nilsson, um dos homenageados deste ano (com Olney São Paulo). O festival ocorre somente lá. Perguntei a Leonardo porque não o traz a São Paulo – coisa que ele já fez uma vez – e a explicação é a mais óbvia e simples. Falta de dinheiro. Mas eu gostaria de rever os filmes de Torre-Nilsson. No sábado que vem tem ‘La Casa del Angel’ e ‘Los Siete Locos’. No domingo, ‘La Mano en la Trampa’ e ‘El Santo de la Espada’. Lembro-me de um texto de Jefferson Barros, grande crítico gaúcho, perguntando-se, nos idos de 1960, no ‘Correio do Povo’, em Porto Alegre – ‘O que seria de Michelangelo Antonioni sem a Itália, de Ingmar Bergman sem a Suécia ou de Louis Malle sem a França? Seriam Walter Hugo Khouri fazendo cinema no Brasil.’ Ele falava de Khouri, a respeito de não sei que mais qual filme, mas poderia estar falando de Torre-Nilsson. Como Khouri, aqui, Torre-Nilsson também era chamado, na Argentina dos anos 50, de ‘Sueco’. Influenciado por seu compatriota Jorge Luis Borges e, depois, a partir de 1957, trabalhando quase exclusivamente sobre roteiros (e/ou originais) de sua mulher, a romancista Beatriz Guido, ele desenvolveu um cinema claustrofóbico, impregnado de referências literárias e vanguardistas, ao mesmo tempo mórbido e onírico. Mas era um vanguardismo que os críticos definiam como de segunda mão. Torre-Nilsson padeceu muito com as cobranças da crítica de esquerda, para quem ele era alienado, mesmo que ‘La Casa del Angel’ tenha causado sensação em Cannes, numa época em que o maior festival de cinema do mundo esnobava o próprio Bergman. Consciente de seu isolamento, Torre-Nilsson buscou uma vertente nacional-popular (gramsciana?), que encontrou nos épicos, começando por ‘Martin Fierro’, que venceu o FestRio de 1969. Lucrecia Martel reluta em assumir – perguntei-lhe de novo este ano, em Cannes -, mas o cinema dela é um desdobramento do de Torre-Nilsson, que foi contestado pelas novas gerações argentinas nos anos 60 e 70, por Fernando ‘Pino’ Solanas, que fez ‘Los Hijos de Fierro’ contra ‘Martin Fierro’, o filme, não o poema épico de José Hernandez, considerado um dos marcos da construção da identidade argentina. Adoro essas histórias. Sou muito suscetível à solidão desses grandes homens incompreendidos, que me parecem dignos heróis fordianos, derrotados num ou noutro momento de suas vidas, mas que voltam para nos assombrar porque a obra deles, por mais contestada que seja (ou tenha sido), sobrevive.