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Cinemateca Saraiva

Luiz Carlos Merten

16 Outubro 2009 | 10h11

Nem tive tempo ontem de postar. Havia saído mais cedo na quarta e tinha todas as matérias que deveriam estar no ‘Caderno 2’ de hoje – ‘Distrito 9’, ‘O Caçador’ e ‘Te Amarei para Sempre’. A página teve de cair, por causa de classificados, essas coisas, e ficou para amanhã. Gosto tanto de ‘D-9’, cujo diretor, Neill Blomkamp, entrevistei em Cancun, na super junket da Sony… O restante do dia foi consumido em compromissos várioos e novas matérias – para o domingo. Mas estou querendo comentar o seguinte. Estive várias vezes com Rodrigo Fonseca no Rio, durante o festival. Toda noite a gente batia o cartão nas pré-estreias da Première Brasil, polemizava – amigavelmente –, mas o Rodrigo nunca me falou da coleção de DVDs Cinemateca Saraiva. Cheguei em casa e me aguardavam três desses DVDs – ‘A Luz É para Todos’ e ‘Viva Zapata!’, dois filmes de Elia Kazan, e ‘Glória Feita de Sangue’, o clássico de guerra de Stanley Kubrick. Não sei muita coisa da coleção, não sei se o Rodrigo faz a curadoria ou só assina os textos da contracapa, mas acho bacana esse resgate de clássicos. Kazan realizou ‘Zapata’ em 1952, quando já havia comparecido perante a Comissão de Atividades Antiamericanas do Senado, aceitando colaborar com o macarthismo. No livro com a entrevista que deu a Michel Ciment – já disse que é um dos mais belos livros de cinema, e de memórias que já li; ninguém se expõe tanto quanto Kazan –, ele conta que a delação foi muito mais uma tomada de posição contra o stalinismo do Partido Comunista norte-americano e que os nomes que ele deu já estavam na roda a partir de outros depoimentos; eram a linha-dura do partido. Kazan não se justifica pelo que fez, não pede compreensão. A frase que gostaria de colocar na lápide em sua sepultura é reveladora – “Não fez tudo o que gostaria, não se orgulha de tudo o que fez’ – e sempre me tocou muito que Kazan, odiado por todos, fazendo ‘Zapata’, tenha jurado a si mesmo que permaneceria revolucionário e iria fazer filmes cada vez mais críticos sobre a sociedade dos EUA. ‘Zapata’, o filme, não apenas humaniza seu personagem como adota o partido trotskista da revolução permanente. Foram tantas as peripécias durante a realização – a Metro, que seria a produtora original, passou o projeto nos cobres – que é até um milagre que semelhante filme tenha sido concluído, em plena histeria anticomunista (e tem gente que acha o ‘Che’ de Soderbergh corajoso, francamente!). De todo o episódio, o diretor, que trabalhou com um roteirista vencedor do Nobel (John Steinbeck, que ganhara o prêmio em 1939) guardou algumas lições. Ele sempre se orgulhou de que um tal Partido Revolucionário de Porto Rico tenha adotado ‘Viva Zapata!’ como manual de esquerda. O ideário zapatista está todo lá – o poder corrompe e quem deve zelar pela revolução é o povo. Não existem líderes sem defeitos, sabiam Zapata e Kazan. A maior provocação – à esquerda tradicional – foi um personagem inventado, Fernando Aguirre (Joseph Wiseman), espécie de eminência parda da revolução e com uma sede de poder comparável à de Stálin, o que termina por fazer dele um lacaio de quem estiver na presidência. Qualquer esquerdista não dogmático vai reconhecer que o filme é um primor de espetáculo didático – e nada influenciado pelo Eisenstein de ‘Que Viva México!’, como gosta de assinalar Sérgio Augusto. Kazan disse certa vez que ‘Zapata’ era um de seus filmes favoritos – claro! – e, se tivesse que mexer em alguma coisa, mudaria só a cena da noite de núpcias, que considerava muito glamourizada. Ainda bem que nunca fez essa besteira. A cena é antológica. Brando, como Zapata, pede à noiva, Jean Peters, que o ensine a ler. A lendária crítica Pauline Kael interpretou a cena. Em vez de desvirginar sua noiva, Brando/Zapata pedia a Jean Peters que deflorasse sua mente virgem. Aquele cavalo branco no desfecho de ‘Zapata’ ainda corre solto no meu imaginário. E reapareceu na noite chilena em ‘Missing, o Desaparecido, Um Grande Mistério’, de Costa-Gavras, perseguido pelos milicos de Pinochet.