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Luiz Carlos Merten

05 Agosto 2007 | 19h11

issim ben Joya, diretor da Cinemateca de Haifa, já me havia falado sobre Lia Van Leer. O Festival do Cinema Brasileiro de Israel ocorre em três cidades – Haifa, Tel-Aviv e Jerusalém. Tivemos três inaugurações, nesta ordem. A idéia, para o ano que vem, é estender o festival até Ramalah, onde há uma comunidade de palestinos-brasileiros. Como preparativo, iremos amanhã, em companhia do embaixador Costa Pinto e da delegada do Brasil na Autoridade Palestina, Rosimar Suzano, assistir a uma sessão que vai funcionar como balão de ensaio para 2008. O filme escolhido foi Vinicius, o documentário de Miguel Faria Jr. sobre o dublê de poeta, músico e diplomata. Estou colocando o carro diante dos bois, mas não podia mais esperar para contar sobre a ida a Ramalah. Volto a Lia van Leer. Apaixonada por cinema, ela fundou em 1956 a Cinemateca de Jerusalém. É uma senhora que transmite uma autoridade impressionante, mas me permiti uma brincadeira. Disse que no Brasil temos uma cachaça 51, a que chamamos uma boa idéia, e que a cinemateca dela, com 51 anos, era outra boa idéia. Já conheci algumas cinematecas ao redor do mundo e nunca vi uma tão bonita. Possui cinco andares que descem acompanhando a irregularidade do terreno. A gente entra pelo quinto andar, que fica no nível da rua, e desce. No quarto tem o restaurante, no segundo a sala de exibições e no térreo um amplo jardim onde foi realizado um coquetel. De frente, no outro lado, está a porta de Jaffar, que dá acesso à Cidade Velha, com o Muro das Lamentações, a Igreja do Santo Sepulcro e a Mesquita de Aksa. Conversei um pouco com Lia e ela me contou como conseguiu apoio – e patrocionadores, inclusive do Brasil – para construir sua cinemateca. Lia lembrou que houve aqui uma retrospectiva do cinema brasileiro que apresentou obras importantes do Cinema Novo e ela ficou fascinada com o força dos diretores do movimento. Perguntei-lhe se tinha um filme preferido. Ela disse que tinha dezenas, centenas. Não saberia escolher nenhum. Em compensação, lembra-se do primeiro filme que viu e que acendeu nela a fagulha da paixão pelo cinema – Les Enfants du Paradis, que recebeu no Brasil o título de O Boulevard do Crime, de Marcel Carné. Insisti no preferido. Tentando dar um exemplo, disse que o meu era Rocco e Seus Irmãos, de Visconti. Ela reagiu bem ao autor, mas não ao filme. Concordou que Visconti é um dos maiores, mas não considera Rocco um de seus grandes filmes. Disse-o com a autoridade de quem não admite contestação. Apesar da divergência essencial, fiquei fascinado por sua personalidade magnética. Dei-me conta de que toda cinemateca é sempre resultado de uma paixão. A de Paris foi um delírio de Henri Langlois, a de Montevidéu, de Homero Alsino Thevenet e a de São Paulo, de Paulo Emílio Salles Gomes e Almeida Salles. Porto Alegre não tem uma cinemateca, mas tem, até hoje, um dos cineclubes mais antigos (não sei se o mais antigo) e um dos mais atuantes do Brasil. Foi um sonho de Paulo Fontoura Gastal, o Calvero, a quem já me referi várias vezes neste blog. Cinematecas e cineclubes são sonhos de visionários. Perguntei a Lia se havia conhecido Otto Preminger, quando filmou Exodus em Israel, por volta de 1960. Ela contou que a produção de Preminger teve Haifa como base, até porque o filme tinha muitas cenas de porto. Lia não apenas conheceu Preminger. Conviveu com ele durante toda a sua estada em Israel. Conta histórias incríveis sobre os bastidores de Exodus. Pesquisem sobre ela e a Cinemateca de Jerusalém na internet. Vai valer a pena.