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Luiz Carlos Merten

12 Março 2012 | 11h14

‘Cahiers du Cinéma’ chega com atraso ao Brasil, às bancas da Paulista e do Centro. Três meses, no mínimo. Em Paris, no começo de fevereiro, comprei alguns números atrasados e encontrei a origem de certas reflexões de alguns colegas da crítica brasileira, muito instrutivo, he-he. Comprei também ‘Positif’ e essa não chega ao País, de jeito nenhum. Confesso até que, no jogo anti-‘Cahiers’, sou mais ‘Positif’, principalmente pelos dossiês que a revista publica, ‘Cinéma Retrouvé’. Só agora, ao tirar da mala as publicações (catálogo, ‘Screen’, ‘Hollywood Reporter’) que trouxe de Berlim, parei para olhar as edições que comprei de ‘Positif’i. Em diferentes números, uma entrevista muito bacana com Steve McQueen, por ‘Shame’, outra com Michael Fassbender, pelo conjunto da obra – ‘Positif’ compartilha meu entusiasmo por ele -, e no cinema reencontrado de février, René Clément. Nos anos 1940 e 50, creio que ele foi diretor mais premiado da história do Festival de Cannes. Jean Renoir e André Bazin, os mentores de François Truffaut, o tinham em altíssima conta, como um grande diretor, mas o jeune turc François decretou a mise à mort de Clément e o colocou no mesmo saco do cinéma de qualité que tanto abominava. Pode ser que o que vou dizer agora desagrade à muita gente, sorry, mas tenho cada vez menos respeito por Truffaut, como crítico e até cineasta. Pouquíssimos de seus filmes estão inscritos a ferro e fogo no meu imaginário – gostava de ‘Os Incompreendidos’ e ‘Jules e Jim’, que revi recentemente e não me impressionaram tanto, mas ‘O Garoto Selvagem’ segue intacto – e, no processo de ruptura/acusação com Jean-Luc Godard, sou mais o segundo, que acusava Truffaut de se haver convertido num cineasta burguês de qualidade, merecedor de desprezo. (Aliás, que belo filme ‘O Desprezo’, que revi no avião, vindo de Berlim. Só o travelling inicial vale toda a obra de Truffaut.). Entendo e respeito, claro, que as pessoas amem ‘A Mulher do Lado’, mas ‘De Repente, num Domingo’, que terminou a carreira de Truffaut, não dá. E ele era um xiita. A generosidade, que podia florescer nos filmes (o professor Itard), não fazia parte do seu caráter de intelectual. Era um canibal, um lobo feroz. Talvez exagere, mas gosto quando ‘Positif’ exuma essas figuras ‘condenadas’. Clément antecipou Roberto Rossellini e deu ao cinema da resistência um de seus títulos importantes (‘A Batalha dos Trilhos’) – ambos concorreram em Cannes, no mesmo ano, e Clément levou a melhor sobre ‘Roma, Cidade Aberta’  -, refletiu sobre a guerra (‘Brinquedo Proibido’), fez o melhor Tom Ripley do cinema (Alain Delon, em ‘O Sol por Testemunha’, amado pela própria Patricia Highsmith), foi o único autor ‘estrangeiro’ que conseguiu acertar o tom na comédia italiana (‘Que Alegria Viver’, também com Delon) e ofereceu a Charles Bronson seu melhor papel num thriller cerebral e sem alma (‘O Passageiro da Chuva’), que havia virado, desde ‘Plein Soleil’, o ‘seu’ gênero. O revival de Clément se faz no quadro de uma ampla retrospectiva (não me lembro se no Beaubourg ou na Cinemateca, em Bercy) e também no resgate, em cópia nova, da celebração do anarquismo em ‘Che Gioia Vivere’. Acho meio exagerado, mas até o retrato de Delon como Chaban-Delmas em ‘Paris Está em Chamas?’, que o converteu em cineasta oficial da V República – dois anos do célebre Maio – está sendo recuperado. Clément, que morreu em 1996, está rindo por último e isso, não posso deixar de registrar, me parece interessante.