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Luiz Carlos Merten

01 Fevereiro 2007 | 10h54

Converso daqui a pouco com João Jardim, diretor de Pro Dia Nascer Feliz, a propósito do documentário dele que, finalmente, entra em cartaz amanhã, mais de um ano depois de papar importantes prêmios em 2005. À espera do João, quero colocar aqui um post sobre a revisão do Cinema Novo que está ocorrendo, desde ontem, no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo. Contei 37 filmes no release que o Zanin, meu colega Luiz Zanin Oricchio, me passou. Devo a ele a informação de que o programa havia começado no CCBB. As mudanças internas (de espaço físico) aqui na redação do Estado e a correria para ver filmes que estão estreando (e que havia perdido por estar de férias) me deixaram meio fora de eixo. Já disse que pertenço a uma geração que foi muito dura com o Cinema Novo, em suas origens. Glauber Rocha teve, em Porto Alegre, as piores críticas de sua carreira. Não sei se a crítica e historiadora gaúcha Fatimarlei Lunardelli concluiu sua tese em que ela tenta justamente elucidar o porquê disso. Seu ponto liga-se a questões políticas. O positivismo de Comte predominou na formação política e cultural do Estado e estaria em choque com a visão glauberiana, principalmente em relação ao seu enfoque do mito do sebastianismo em Deus e o Diabo. Não sei se foi por isso mesmo. Talvez – mas só sob muitas camadas de subconsciente. No geral, até onde me lembro, não gostávamos do Glauber porque não conseguíamos entender a nova linguagem que ele estava querendo criar e também, acredito, por uma diferença de paisagem. O Cinema Novo tomou, inicialmente, o rumo do sertão e não há nada mais diferente disso do que o pampa, que a gente usa no plural – os pampas. A tradição do gaúcho, que liga toda a cultura do Prata (Uruguai, Paraguai, Argentina e Brasil), foi muito bem expressa pelo Érico Verissimo no monumental O Tempo e o Vento, com o personagem do Capitão Rodrigo. Revisei, claro, minhas idéias sobre Glauber, mas o que gosto dele é aquele núcleo formado por Deus e o Diabo, Terra em Transe e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, que é o meu preferido, por mais que entenda a importância dos outros dois. Nos anos 60, no alvorecer do Cinema Novo, o que os diretores faziam, com uma idéia na cabeça e uma câmera na mão, era buscar a cara do brasileiro, filmando na favela ou no sertão. O conceito talvez sugira que os filmes eram feitos ao léu, mas não é verdade. Havia um pensamento na cabeça e a câmera, muitas vezes, estava na mão de ferro do Dib Lutfi. Mesmo distanciado do público (o povo estava na tela, não na platéia), o Cinema Novo criou uma identidade que é até hoje referência. Boa parte do cinema brasileiro da retomada quer dialogar com a herança do Cinema Novo, até porque talvez seja difícil, para quem filma no País, querer ignorá-la (se fosse possível). A questão do Cinema Novo é complexa e não quero cair em simplificações. João Jardim está me esperando. Só acho que, se desse, seria bom rever os 37 filmes. Alguns talvez cresçam, outros poderão diminuir.Toda revisão sempre revela surpresas. O importante é o legado e, mais que ele, a permanência de determinadas obras fundamentais – Deus e o Diabo, Os Fuzis (mas por que não Vidas Secas?), O Padre e a Moça e O Dragão, quando Glauber substituiu a estética da fome pela do sonho. Um pouco marginal ao Cinema Novo, mas não integrado ao que se chama de Cinema Marginal, recomendo que vejam Vida Provisória, de Maurício Gomes Leite, que é um dos meus cults.

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