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Luiz Carlos Merten

08 Setembro 2010 | 08h42

Nada mais tentador. Voltei hoje à redação do Estado, depois de meu interregno nas Gerais – em Gonçalves, que recomendo, a Pousada Bicho do Mato e o restaurante Le Bistrot, um francês melhor dos que os metidos a besta que, às vezes, frequento em São Paulo. Mas cheguei ao jornal e, a caminho da minha mesa, sobre o balcão que corre ao longo de toda a redação, estava jogado um Segundo Caderno do Globo, com a capa que Rodrigo Fonseca fez, na segunda, dia 6, sobre o Novíssimo Cinema Brasileiro, anunciando a Semana dos Realizadores, que começa amanhã no Arteplex carioca. Antes de ser um conceito, Novíssimo Cinema era o nome de uma sessão criada por Eduardo Valente e pela também cineasta Lis Kogan. Virou uma assinatura dos dois, uma intervenção, um olhar, que aplicam à semana que põe na tela as novas propostas mais interessantes do cinema do País. Os veteranos que ainda ousam que me perdoam, mas desde o Festival de Tiradentes, em janeiro, estou apaixonado por novos talentos como aquela garotada do Ceará – é uma parentalha danada, os irmãos Pretti e os primos Parente e Diógenes –, que fez ‘Estrada para Ythaca’. Depois, em Gramado, vi como o ‘Ythaca’ dialoga de forma tão intensa com ‘A Última Estrada da Praia’, que Fabiano de Souza adaptou de ‘O Louco do Cati’, de Dyonélio Machado. Pois a Semana dos Realizadores reúne 25 filmes dessa geração de autores que se pautam pela transgressão e lutam contra a invisibilidade a que quer condená-los o mercado. Confesso que, mesmo não tendo gostado do filme, fiquei bem feliz com os 500 mil espectadores que ‘Nosso Lar’ fez no fim de semana, de sexta a domingo. Foram 345 cópias, mas mesmo assim o filme fez mais de mil espectadores por cópia, o que configura um grande sucesso. Espero que a corrida aos cinemas tenha continuado na segunda e na terça, durante o feriadão. Pode parecer paradoxal, torcer por ‘Nosso Lar’ sem gostar dele, mas o filme mais caro do cinema brasileiro representa um esforço muito grande da produtora Iafa Britz, minha amiga, e eu fico feliz por ela, uma judia que montou um set pan-religioso para a colocar na tela, segundo a visão do diretor Wagner de Assis, a cidade espiritual descrita por Chico Xavier em seu best seller psicografado pelo espírito de André Luiz. Aliás, é impressionante como existe um clima para isso. Seria bobagem dizer que ‘Nosso Lar’ foi feito para aproveitar o sucesso de ‘Chico Xavier’, de Daniel Filho – que é melhor –, mas o impressionante é que o tema do espiritismo está no ar. Até Manoel de Oliveira, em seu novo longa, ‘O Estranho Caso de Angélica’, envereda por essa seara, retomando um projeto antigo, e ninguém vai ser louco de colocar em discussão a integridade artística do grande Manoel, nem a de Geraldo Sarno, que foi premiado em Gramado com seu ‘Último Romance de Balzac’ e o filme integra a programação da Semana dos Realizadores. Voltando a ‘Nosso Lar’, o esforço de produção foi grande, mas, pelo visto, está sendo recompensado. Nada contra o sucesso, tudo contra a invisibilidade. Gostaria que a Semana dos Realizadores não permanecesse somente no Arteplex do Rio e que o Adhemar Oliveira nos fizesse o favor de transportá-la para São Paulo, para que os cinéfilos locais revejam ‘Ythaca’ – já exibido no Festival Latino-Americano – e também ‘A Última Estrada da Praia’, ‘Terras’ (de Maya Da-Rin), ‘Desassossego’ (O Filme das Maravilhas, feito por coletivo integrado por Karim Ainouz e Felipe Bragança e Marina Meliande, a dupla de ‘A Fuga da Mulher-Gorila’, que até hoje não vi, acreditam?). Estou citando quantos? Quatro de 25 filmes, uma fração mínima. Adoraria ir ao Rio no fim de semana para desfrutar da Semana, mas é o meu aniversário e, velhinho que já sou, gosto de curtir a data com os amigos. Mas espero que o Eduardo Valente comente este post para nos dar as datas em que o Cinema Novíssimo, sob a bandeira da Semana dos Realizadores, estará desembarcando aqui. Estamos aguardando, Duda.