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Luiz Carlos Merten

12 Setembro 2008 | 15h12

O que seria de mim – de nós – sem Mário Kawai para informar o que se passa no circuito alternativo? Boa dica essa das bibliotecas que estão exibindo filmes. Hoje às 6 da tarde, na Viriato Correia (Vila Mariana), tem ‘A Guerra dos Botões’, a versão de Yves Robert, do começo dos anos 60. Amanhã, às 7 da noite, na Roberto Santos (no Ipiranga), passa ‘Mórbida Curiosidade’, que para o Kawai, como para mim, é ‘A Tortura do Medo’, título com que ‘Peeping Tom’, de Michael Powell, foi lançado nos cinemas brasileiros, também no começo dos anos 60. Era muito jovem, na época – pertenço à classe de 45 –, e confesso que a visão do mundo infantil de Robert não me parecia muito diferente da de Truffaut (‘Os Incompreendidos’), da mesma forma que o voyeurismo de ‘Peeping Tom’ era muito contemporâneo do Norman Bates de Anthony Perkins no melhor ainda ‘Psicose’, do mestre Hitchcock. Dei uma parada e fui checar, no Dicionário de Cinema de Jean Tulard, a data certa de ‘A Guerra dos Botões’, 1961. Aproveitei e li todo o verbete que ele dedica a este ator que virou diretor, com uma preferência toda especial pela comédia de fundo literário. O que eu amo no Tulard é que ele é totalmente do bem. Não é excludente, como a maioria dos críticos, que erige um sistemazinho, acomoda nele uma meia-dúzia de títulos e não cabe mais nada, como se para gostar de Bresson eu tivesse de desgostar de George Lucas (e vice-versa). Eu consigo conciliar e o segredo é que procuro descobrir a autoria e levo tão a sério o que encontro em Lucas – seus comentários sobre a transformação da democracia em império, como ilustração dos EUA sob George W. Bush, na segunda, agora primeira, trilogia ‘Star Wars’ –, da mesma forma como é flagrante que o jansenista Bresson é autor de seus filmes. Mais do que esse ou aquele autor, o Tulard me passa a idéia de amar o cinema (e os filmes). E agora que já enfiei o pé na jaca, deixem-me admitir que acho muito bonitas as duas adaptações que Yves Robert fez de Marcel Pagnol, ‘A Glória de Meu Pai’ e ‘O Castelo de Minha Mãe’. Imagino que, no limite, tudo aquilo possa ser considerado reaça – universo familiar, a glória do pai etc –, mas me toca.

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