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Cultura » Cinema marginal, uma ova!

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Luiz Carlos Merten

24 Abril 2009 | 16h09

Fui ontem no final da tarde ao escritório de Eugênio Puppo, na Pompéia, para entrevistá-lo sobre a coleção Cinema Marginal Brasileiro, meu tema na reportagem de capa de amanhã do ‘Caderno 2’. É a concretização de um sonho de quase dez anos do Puppo, desde que começou a investigar o cinema marginal por volta de 1970, em ciclos e publicações, e confesso que um sonho meu, que sempre quis ver ‘Bang Bang’, de Andrea Tonacci, saindo em DVD. Até tentei chamar a atenção de alguns distribuidores de DVDs para a importância do filme, mas acho que o rótulo ‘marginal’ os assustou. Não é um conceito ao qual as pessoas costumem aderir com facilidade. Os próprios diretores do chamado ‘cinema marginal’ têm preconceito contra ele, preferindo que seja chamado de poético, experimental e underground (a maioria também acha maldosa a brincadeira de Glauber, que taxou underground como udigrudi, mas essa é outra história). A coleção de DVDs lança dia 2 os primeiros quatro títulos – ‘Bang Bang’, ‘Sem Essa Aranha’ (de Sganzerla), ‘Os Monstros de Babaloo’ (de Elyseu Visconti) e ‘Meteorango Kid’ (de André Luiz Oliveira). É uma parceria da Heco Produções, empresa de Puppo, com a Lume, distribuidora de DVDs de arte, que ainda não tinha nenhum selo do cinema brasileiro. São duas empresas pequenas. Bateram num monte de portas, mas nenhuma diretoria de Marketing quis colocar dinheiro no restauro do cinema marginal. A Heco e a Lume estão bancando o projeto sozinhas. Se não vender, são capazes de falir, mas eu espero sinceramente que isso não ocorra. Pretendo voltar ao assunto porque essa polêmica do marginal não se esgota assim. O rótulo ainda incomoda, mas Eugênio Puppo insiste nele porque se trata de um marco do cinema brasileiro que precisa ser recuperado e revisitado, levando em conta as críticas que se fazem a essa definição. Ele me contou que hoje dialoga com Júlio Bressane, mas na primeira vez que telefonou para ele e falou em cinema marginal, Bressane, do outro lado da linha, bateu com o telefone, indignado. Marginal, porra nenhuma. São filmes radicais na estética, na provocação. E ‘Bang Bang’ é demais, no seu diálogo com os códigos do policial de Hollywood nos anos 40 revistos pelo filtro paródico das chanchadas nos 50. Pereio é genial, o rei do deboche, como um dos três bandidos de ‘Bang Bang’, naquela perseguição maluca, empurrados pela vida (e pelas necessidades de linguagem). Na terça, dia 28, Andrea Tonacci recebe o prêmio APCA de melhor filme de 2008 – por ‘Serras da Desordem’ -, que divide com ‘Linha de Passe’, de Walter Salles e Daniela Thomas. Talvez seja um bom dia para retomar a discussão sobre o cinema marginal.