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Luiz Carlos Merten

15 Julho 2008 | 14h20

Meu amigo Sérgio Leeman, ex-Telecine, recuperado da cirurgia a que se submeteu, me ligou ontem do Rio para colocar a conversa em dia e dizer que está me enviando as cópias em DVD de filmes que estou morrendo de vontade de rever. Dois de Florestano Vancini (‘A Noite do Massacre’ e ‘Enquanto Durou o Nosso Amor’/Le Stagione del Nostro Amore) e um Gordon Douglas (‘Nenhuma Mulher Vale Tanto’, com Alan Ladd e Virginia Mayo, que ele exibiu em Portugal, coisa mais civilizada, para comemorar o centenário do maior diretor obscuro da história de Hollywood – a cópia, me garante o Sérgio, é deslumbrante). Sérgio Leeman aproveitou para incluir no pacote um Dino Risi, ‘L’Ombrellone’ (Férias à Italiana), ao qual somou uma correção. Quando Risi morreu, citei uma cena deste filme – Sandra Milo na praia, a areia escorrendo entre os dedos e ela falando sobre o vazio de sua vida e a solidão que a consome. Antonioni puro, mas com humor. A correção é a seguinte. Sandra está na cama com o marido, Enrico Maria Salerno, curiosamente, o ator de ‘Enquanto Durou o Nosso Amor’ – o Ulisses de Vancini, já que ele encontra Nausicaa numa cena antológica de praia. Bom, acho que encontra, pois a questão é a seguinte. Sandra Milo, no filme de Risi, não está na praia coisa nenhuma e o que eu visualizo na lembrança como imagem – a metáfora da areia – é, na verdade, um diálogo (ou monólogo) da personagem. Isso desencadeou uma conversa muito interessante. André Bazin dizia que a gente recria os filmes no inconsciente e até sugeriu, certa vez, que a versão dele de ‘Pérfida’ (The Little Foxes), aquela que descrevera em sua crítica, era melhor do que a do diretor William Wyler. Eu também crio/recrio filmes imaginários. Tive, por exemplo, a maior decepção ao rever ‘O Dragão da Maldade’, porque o duelo entre Coirana e Antônio das Mortes não era do jeito como eu me lembrava. Eu havia construído outro duelo na lembrança, e ele era melhor do que o filmado por Glauber Rocha. Sérgio, que não gosta muito do ‘Dragão’, aproveitou para insinuar que meus filmes imaginários são sempre melhores, pelo que eu deduzo que ele também não seja entusiasmado por ‘L’Ombrellone’, preferindo outros filmes de Risi. Vou rever ‘L’Ombrellone’, E também o Vancini. Depois, a gente conversa mais – ou eu falo, aqui do meu lado.