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Luiz Carlos Merten

26 Janeiro 2007 | 14h37

Não sou muito fã de Mário Peixoto e seu Limite – perdão, Sérgio Machado, Walter Salles e Saulo Queiroz, guardiães do legado do diretor -, mas tem uma cena que acho impressionante em Onde a Terra Acaba, o documentário de Sérgio sobre o autor do filme mítico. É quando MP conta o filme que não realizou e conta com uma tal riqueza de detalhes que me impressiona. Duvido que, filmando, ele tivesse conseguido concretizar aquele filme ideal que tinha na cabeça. Vi mais de uma vez Onde a Terra Acaba só por causa daquele momento. Me parecia que o MP, mais que Caetano e Bressane, estava inventando o cinema oral, o cinema falado. Tenho um pouco essa sensação com Rosemberg Cariry, de quem o Festival de Tiradentes mostrou ontem Cine Tapuia, uma releitura, ou reinterpretação do mito de Iracema, coisa importante para todos nós, brasileiros, mas principalmente para quem é cearense, como ele (e o autor do romance, José de Alencar). Rosemberg é um cara que não apenas é articulado, como possui o dom de Xerazade. Sabe contar uma história oralmente. Não sabe com a câmera. Ouvindo-o falar sobre Corisco e Dadá, nem me lembro mais em que festival, era como se estivesse ouvindo sobre um dos mais ricos e complexos filmes do mundo, o que não era o caso do filme que havia visto e que era consideravelmente mais pobre. Tive de novo essa sensação. Não se trata de cobrar uma estética de resultado. RC nem qualquer outro diretor tem de saber contar uma história no sentido hollywoodiano, e isso talvez nem fosse bom (para o cinema brasileiro e para ele). Juro que não estou querendo desrespeitar RC. É homem de cultura, erudito, mas talvez o cinema não seja sua forma de expressão. Ou então ele não tem coragem de radicalizar. Se armasse o plano e se pusesse diante da câmera falando, sem nenhnum outro recurso – só ele, sua voz -, acho que eu, pelo menos, ia me sentir muito mais fascinado pelo material do que assistindo a Cine Tapuia.

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