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Cinema e história(s)

Luiz Carlos Merten

09 Abril 2010 | 09h58

Perdi ontem a chance de falar sobre o início do Festival dos Melhores Filmes no CineSesc e o filme que abriu a programação para o público foi justamente o de Tarantino, ‘Bastardos Inglórios’. Tarantino reinventou-se e foi o grande vitorioso desta edição, acompanhado por seu fantástico ator Christoph Waltz, que ganhou o prêmio da categoria, tanto do público quanto da crítica. Vou aproveitar para fazer um post meio estapafúrdio. Recebi dois livros bastante interessantes. Não os li, quer dizer, li na vertical, os capítulos que mais me interessaram. Uma seleção de textos da ‘Vanity Fair’ sobre cinema e os mais atraentes foram sobre ‘Cleópatra’ e ‘A Primeira Noite de Um Homem’. O próprio Mankiewicz nunca teve uma opinião lisonjeira sobre seu épico sobre a rainha do Nilo, o que era compreensível. Ele enfrentou tantos problemas que, simplesmente, nunca teve distanciamento para falar sobre o filme. Desenvolveu uma tal aversão a ‘Cleópatra’ que nem nomeava o próprio trabalho. Dizia ‘aquele’ filme. ‘Cleópatra’ encerrou um capítulo da história de Hollywood e é justamente disso que trata o texto de ‘Vanity Fair’. Se algo termina, se destrói, muito provavelmente algo surge para ocupar o lugar e sobre os escombros da ‘velha’ Hollywood surgiu a ‘nova’, representada por ‘A Primeira Noite de Um Homem’, de Mike Nichols. ‘Cleópatra’ é, oficialmente, de 1963. ‘A Primeira Noite’, ou ‘The Graduate’, de 67. Quatro anos separam os dois filmes e é todo um mundo, uma concepção de cinema e comportamento também, que se transforma(m). O outro livro é ‘A História nos Filmes/Os Filmes na História’, de Robert A. Rosenstone. O tema é polêmico. O cinema, leia-se Hollywood, foi com frequência acusado de falsificar a história, mas o que se pode dizer é que, no fundo, prevalece sempre a abordagem do ponto de vista de uma perspectiva ‘contemporânea’. Quando Raoul Walsh fez seu filme sobre o general George Armstrong Custer, ele era considerado um herói da epopeia do Oeste. O revisionismo começou depois e já atingiu o Custer disfarçado de John Ford em ‘Sangue de Herói’ (Fort Apache), mas, por mais que ame Ford, eu vou defender até a morte o personagem idealizado de Walsh em ‘O Intrépido General Custer’, que é mais cinema. O próprio Ford idealizou Wyatt Earp e o duelo do OK Corral em ‘Paixão dos Fortes’, contemporâneo de ‘Sangue de Herói’, bem antes que uma reportagem da revista ‘Life’, em 1960, mostrasse o famoso tiroteio sob outro ângulo. John Sturges fez o OK Corral revisionista em ‘A Hora da Pistola’ e o filme, embora bom, é inferior à versão ‘oficial’ que o próprio Sturges havia feito, dez anos antes – ‘Sem Lei, Sem Alma’. Não vou praticar a irresponsabilidade de dizer que se dane a exatidão histórica, mas sou sempre pela perspectiva da contemporaneidade. E daí que Sofia Coppola use música de rock na corte de Versalhes, em ‘Maria Antonieta’? O filme é sobre uma jovem dos anos 2000 perdida na França de 1789. Toda abordagem de um fato ou personagem histórico é sempre isso – uma leitura particular. Eu, por exemplo, acho muito hagiográfico o ‘Gandhi’ de Richard Attenborough e gostaria, para incrementá-lo, que o diretor e seu roteirista tivessem levantado questões que não me parecem irrelevantes. Tudo bem com a doutrina da não violência, mas daí a querer que os judeus ficassem só na resistência passiva contra os nazistas… Talvez a omissão fosse puramente prática. Os judeus inventaram Hollywood e ‘Gandhi’ poderia perder a enxurrada de Oscars, e até ser taxado de anti-semita, com uma tal colocação. De volta a Tarantino, desde Cannes, no ano passado, muita gente discute as liberdades que ele toma no desfecho de ‘Bastardos’, fazendo com que Hitler morra justiçado naquele cinema em Paris. Houve quem chamasse aquilo de irresponsabilidade. Eu adorei essa força que Tarantino confere ao cinema e o filme virou um tal objeto de culto que a discussão foi sendo minimizada. Leiam os livros, com atenção o capítulo sobre ‘Cleópatra’. Não concordo com a avaliação estética do filme, mas a abordagem é esclarecedora, principalmente sobre os efeitos que ‘Cleópatra’ teve sobre a vida, mais até do que sobre a carreira, de Mankiewicz. Ele nunca mais se recuperou do desgaste físico e psíquico, mas se há um filme ‘autoral’, no cinemão, é ‘Cleópatra’. E a Taylor é divina, com duas ou três cenas antológicas. Quando irrompe no quarto de Júlio César, protestando contra o incêndio de sua ‘library’ (biblioteca) – a maneira como ela diz a palavra é… única – e Rex Harrison a trata com desdém (‘Stop, young lady’); e depois quando tem sua grande crise ao saber do casamento de Marco Antônio, em Roma. Mas a grande cena – shakespeariana – de Taylor é o suicídio, filmado de cima, o ‘nunca houve tamanho silêncio’. Aquilo faz parte do meu imaginário como a ruptura de Alain Delon e Annie Girardot, no salto do Duomo, em ‘Rocco e Seus Irmãos’; John Wayne abrindo os braços para acolher Natalie Wood em ‘Rastros de Ódio’; ou o glorioso ‘Te entrega, Corisco’ de Sérgio Ricardo no desfecho de ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’.