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Luiz Carlos Merten

29 Outubro 2007 | 14h32

Cheguei aqui no jornal, depois da cabine de ‘Leões e Cordeiros’, sobre o qual já vou falar, e havia um pedido de correção da Mostra. No texto de hoje no Caderno 2 sobre os jurados da Mostra identifiquei o diretor africano na mesa como Férid Boughédir, da Tunísia, quando o cara é o senegalês Moussa Sene Absa, de ‘Teranga Blues’, que integra a programação deste ano. Lamento profundamente oocorrido, mas fui induzido ao erro pela própria Mostra, que distribuiu à imprensa um comunicado com os nomes dos jurados e o primeiro era justamente o de Férid, seguido pelas demais pessoas que eu conhecia e que estavam na mesa (Hirokazui Kore-eda, Inês de Medeiros e Lúcia Murat). Somente agora, cavoucando no buraco negro da minha mesa descobri o tal release e, realmente, o nome do Moussa está na segunda página, bem acima da relação dos filmes escolhidos pelo público para concorrer ao prêmio Bandeira Paulista. Erro meu, mas o que fazemos agora com o Férid? Ele ainda é jurado? Sua defecção é mais uma à somar-se aos problemas criados pela greve da Air France em Paris e que tantos reflexos está tendo na Mostra? Não ironizo, de maneira nenhuma, e embora não seja da maneira como queria a correção me permite voltar à coletiva e ao Moussa, que eu erradamente identificava como Férid. Confesso que tremi nas bases quando o assunto da coletiva virou a mulher no cinema, não a mulher como personagem, mas como diretora. Entendo que esse assunto tem (ou teve) sua importância, mas não vejo mais muito sentido em analisar os filmes pensando se quem assina é homem, mulher, gay ou lésbica. Pensem bem – Kathryn Bigelow é mulher, é sexy, não é lésbica, e, a se julgar por filmes como ‘Jogo Perverso’ e ‘Estranhos Prazeres’, eu seria capaz de colocar minha m,ão no fogo de que ela é o último macho de Hollywood. Mulher, sexo frágil? Não algumas que andam por aí ( e que não vestem coturno, deixemos bem claro). Voltando ao Moussa, agora identificado como tal, adorei quando ele acabou a discussão dizendo que a sensibilidade feminina não é exclusividade das mulheres e ele próprio já fez um filme premiado em Berlim e que os críticos pensavam que era feito por uma mulher. Mas o que gostei mesmo foi da frase do Moussa que não pude colocar no texto do ‘Estado’ e agora registro aqui, com o devido crédito. Pediram (não me lembro quem) aos integrantes da mesa que definissem o que era o cinema para eles. Olhem que coisa mais linda que ele disse. É ’emprestar os olhos para que os cegos (nós, o público) possam ver’. Maravilhoso!