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Luiz Carlos Merten

19 Setembro 2009 | 17h41

Olá! Agora, ando assim – simplesmente desapareço. Ontem pela manhã fui ao Rio, para entrevistar o diretor Sérgio Rezende e a atriz Andréa Beltrão, de ‘Salve Geral’, e aproveitei para visitar o Armazém da Cidadania, no cais do porto, sede do Festival do Rio, que começa quinta, dia 24. Walkiria Barbosa, que integra o colegiado que organiza o festival – é a sra. Mercado, responsável pelos seminários -, me ciceroneou. Acho aquele espaço maravilhoso e este ano ele vai estar melhor ainda, abrigando até uma parte de jogos, para atrair jovens, e uma sala de 3-D. O festival promove, entre outras coisas, um workshop com especialistas norte-americanos que vão treinar colegas brasileiros – roteiristas, fotógrafos e diretores – na realização de filmes em terceira dimensão. Por que? ‘A Era do Gelo 3’ foi lançado em, sei lá quantas salas e 10% delas, talvez um pouco mais, equipadas com 3-D, fizeram a mesma renda das restantes 90%. Os números exatos não são esses. Talvez exagere, mas é só para mostrar a atração que o formato desperta no público e o cinema brasileiro não pode ficar fora dessa. Fui ver agora de manhã aquele filme da Sony, ‘Cloudy’ não sei o quê, em 3-D (é bem bacana) e emendei com uma corrida até o Espaço Unibanco, para gravar uma entrevista que deverá ir ao ar pelo SBT agora à noite, no telejornal das 7 ou 8, não sei. O tema é justamente ‘Salve Geral’, que foi indicado ontem como representante brasileiro para concorrer a uma vaga no próximo Oscar de filme estrangeiro (comento no próximo post). Encontrei o Adhemar Oliveira. Tomamos um café e ficamos charlando, como se diz no Sul. Adhemar está se associando ao Carrefour para construir 200 salas populares em supermercados. Todo mundo reclama da falta de salas onde o público do cinema brasileiro – o de periferia – poderá ter ingresso mais barato, sem a pressão do shopping (e da praça de alimentação) que está transformando a ida ao cinema num lazer caro. Lá pelas tantas, falamos sobre tecnologia e me veio uma coisa que escrevi e não sei se ficou claro para quem leu o post anterior, sobre ‘Quartett’. Tenho colegas em relação aos quais vivo na contramão. Os que fazem crítica de cinema dividem os filmes entre autorais e cinemão, entre Deus e o Diabo, baseados numa visão bipolar da arte (e do mundo). Os de teatro rezam na cartilha dos grupos e se engasgam com o teatro ‘comercial’, mesmo o de qualidade, como dizem. Acho isso de uma pobreza intelectual inenarrável. Alguma coisas, não tudo que vejo, do teatro de grupo me parece de um amadorismo de chorar. Fui ver o ‘Quartett’, de Bob Wílsôn e Isabelle Huppert, e achei o limite da experimentação e da radicalidade estética numa estrutura que só o teatro comercial, o teatrão, pode fornecer. Aleluia! Quem foi que disse que o teatro ‘comercial’ não pode ser experimental? Essa gente está na idade da pedra. Comparei ‘Quartett’ ao ‘Batman – Cavaleiro das Trevas’, de Christopher Nolan. Não tem nada mais cinemão do que aquilo e, ao mesmo tempo, é avant-garde pura. Aqui, ainda estamos na publicação e dissecação das teorias de Eisenstein! Vanguardas à retaguarda! O mundo já está anos luz à frente. Comprei agora a edição de julho/agosto de ‘Cahiers du Cinéma’. Ainda não li e nem sei se vou ler. É mania de colecionar. Em geral, dou uma vista d’olhos e chega. A capa é, só poderia ser, ‘Inimigos Públicos’, de Michael Mann. Lá dentro, tem uma grande matéria, ‘Le Relief Fait le Trou’, na qual Jean-Michel Frodon analisa justamente o fenômeno, que considera incontestável do 3-D. Bill Khron, o Sr. ‘Cahiers’ nos EUA, entrevista Joe Dante, que está terminando seu primeiro 3-D – ‘The Hole’ – e, para mim, o melhor, mais que o formato, é saber que o diretor de ‘Gremlins’ e ‘Matinée’ está voltando. Prosseguindo, Thierry Méranger faz uma grande matéria sobre a consolidação da animação em 3-D, desde a nova versão de ‘Toy Story’ até o megasucesso ‘Up’. Há tempos que venho colocando as novas vertentes da animação no meu panteão particular, mas, por mais que admire – e respeite – Hayao Miyazaki, gosto mesmo é de ‘Ratatouille’, vocês sabem. Sorry se os decepciono. Não quero dizer que eu é que estou certo, mas propor alguma espécie de reflexão. Vou mediar algumas mesas no Festival do Rio – os Cineencontros e até uma que vai debater como se faz filmes de sucesso no País. Espero que pelo menos os leitores cariocas do blog compareçam.