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Luiz Carlos Merten

01 Novembro 2008 | 19h51

Está ocorrendo atualmente o CineBH, evento de cinema promovido pela Universo Produção, que também organiza o Festival de Tiradentes. Aliás, durante o Festival do Rio fui rapidinho – bate e volta – a Belo Horizonte, que sediava uma mostra de cinema japonês. O cinéfilo mineiro pode querer mais, mas coisas estão ocorrendo no Estado. Volto ao CineBH porque ele sedia uma discussão sobre mercado e eu recebi um e-mail da Ana D’Angelo relatando um pouco o que ocorre por lá. Fui convidado para o CineBH, mas neste fim de semana, realmente, não dava. No próximo, estarei em Minas, mas aí será em Ouro Preto, para participar do Fórum das Letras, num enciontro para debater jornalismo cultural. Reproduzo o e-mail da Ana com o título que ela própria deu.
Mostra CineBH 2008

Filmes nacionais não chegam ao público, diz Reichenbach

Em depoimento bastante emocionado e sincero, o cineasta Carlos Reichenbach disse ontem, durante debate promovido pela Mostra CineBH 2008, que os filmes nacionais não conseguem chegar ao seu público devido ao mercado estabelecido da distribuição e exibição, que prioriza produções comerciais estrangeiras e estipula ingressos proibitivos para a maior
parte dos brasileiros.

Carlão considerou a situação a pior de quatro décadas, mesmo a década de 90, quando o governo Collor extinguiu a Embrafilme. “Eu faço um filme com mulheres operárias (“Falsa Loura”), um filme sobre elas e para elas, mas elas não podem assistir meus filmes. Não deixam meu filme chegar até sua protagonista. Já que não consigo fazer meus filmes chegarem no público vou fazer filme para mim apenas. Nada mais de mostrar roteiros pessoais para babacas que não entendem nada de cinema avaliarem. Não tem mais sentido
fazer cinema se não consigo chegar no meu público, se não consigo chegar no meu protagonista”. O cineasta participou de mesa sobre a produção independente, tema da Mostra CineBH 2008, ao lado de sua produtora Sara Silveira, do cineasta José Eduardo Belmonte e do produtor Pedro Rovai. A mesa foi mediada pelo crítico Fernando Veríssimo.

Carlão chegou a mencionar a idéia de deixar o cinema em razão da dificuldade de levar seus filmes a salas de exibição. O cineasta lembrou ainda que há uma imagem distorcida de que o cinema brasileiro vai bem nas bilheterias. “Não é essa a realidade. A realidade é que há uma quantidade enorme de filmes que não conseguem ser exibidos. Não existe mais
cinema popular. Se tem que pagar R$ 20 para ir ao cinema não é cinema popular. A classe A e B não gosta de cinema brasileiro”.

Para chegar a essa análise, o cineasta paulista traçou um panorama da produção independente brasileira desde a década de 20, as parcerias dos exibidores com os cineastas, a entrada das majors no mercado nacional e a transformação do mercado exibidor das antigas famílias para monopólio de empresas norte-americanas, o que bloqueia a entrada dos filmes nacionais no circuito e encarece os preços dos ingressos.

A barreira econômica estabelecida pelos ingressos dos cinemas de shoppings foi mencionada por todos os debatedores, assim como o valor exagerado dos atuais orçamentos das produções cinematográficas. “Nós produzimos São Paulo S/A com uma equipe de 12 pessoas; hoje o diretor fica vendo fotos do filme e uma equipe enorme para cuidar de detalhes”, compartilhou sua experiência o produtor Pedro Rovai, responsável por uma produção como “Tainá- Uma Aventura na Amazônia”, considerado um “blockbuster dos
independentes” pela bilheteria alcançada e a produção modesta.

Rovai defendeu uma política de reconhecimento dos talentos nacionais, seja por inovações estéticas, performance na bilheteria ou desempenho em festivais e crítica, para que novas produções de qualidade possam ser feitas de maneira mais rápida. “Hoje se gasta a maior parte da energia com burocracias do processo das leis de incentivo e da captção o
que leva muitas vezes anos sem que o cineasta possa filmar”.

Exemplo desse não reconhecimento é o cineasta Marcelo Gomes, diretor de “Cinema, Aspirinas e Urubus”, citou a produtora Sara Silveira. O filme concorreu à vaga de filme estrangeiro no Oscar e venceu vários festivais nacionais e internacionais, mas Gomes não conseguiu financiamento até agora para realização do segundo longa-metragem.

José Eduardo Belmonte contou sobre seus esquemas alternativos de produção que o levaram a filmar quatro longas-metragens em seis anos. Contudo, apenas um chegou ao circuito comercial e sua idéia é levar os filmes de porta em porta para conseguir exibição. “O único independente do cinema brasileiro é o Fernando Meirelles, que faz o filme que quer, com o dinheiro que quer. O resto depende de mil coisas para conseguir fazer
cinema”.