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Cineaste nas bancas com um número cheio de controvérsia – Trump, Kusturica e Putin!

Luiz Carlos Merten

08 Agosto 2017 | 09h53

America’s leading magazine on the art and politics of the cinema. Não creio que exista hoje outra revista mais interessante de cinema a ser seguida, no mundo, que Cineaste. Talvez a francesa Transfuge, mas essa é multimidia e até favorece a literatura. A edição que chegou às bancas do Brasil põe na capa o garoto de Corra!, Get Out. Trump at the Movies. Apesar dos elogios – para mim exagerados – ao terror de Jordan Peele, o centro da análise do trumpismo nos filmes privilegia… Vontade Indômita, a adaptação do romance The Fountainhead, de Ayn Rand, por King Vidor. É o filme preferido do presidente dos EUA, que coloca não apenas o livro, mas o herói interpretado por Gary Cooper no seu panteão. A virtude do egoismo, mais que do individualismo, pela escritora linca-se ao narcisismo triunfante de Trump. Cooper faz o arquiteto visionário Howard Roark, cujos projetos são sucessivamente rejeitados como ‘engineering impossibilities’. Ele prefere trabalhar como operário da construção a transigir com o conceito de suas obras e termina indo a julgamento quando rico, e poderoso, dinamita a própria obra porque sofreu a interferência da administração pública. Roark deve ser o modelo de Trump por sua filosofia – eu contra o mundo – e também pela energia que o leva, em Hollywood, em 1948!, a estuprar a milionária Patricia Neal, na sequência dos jogos sexuais entre eles. Nem na cama Roark está para brincadeira. Tudo tem de ser do seu jeito. Rand, uma judia russa emigrada para os EUA, é uma escritora e filósofa hoje – ou até Trump – esquecida, mas que criou uma escola, o objetivismo, que ajudou a estabelecer os fundamentos econômicos da ‘América’ pós-depressão. Rand está por trás de todos esses filósofos de araque que andam enchendo de m… a cabeça das pessoas, no Brasil e no mundo. Dizem as maiores banalidades, mas é o que as pessoas querem ouvir e por isso passam por gênios. Querem os nomes? Vocês sabem… Curiosamente, Rand foi contratada pela Warner para adaptar o próprio livro. Ganhou fortunas – o filme foi um fracasso – e se estabeleceu no estúdio, com direito a motorista e secretária, acompanhando diariamente as filmagens para se assegurar de que o rei Vidor não iria mudar uma linha de seu sacrossanto catecismo. O próprio Jack Warner brincava com Vidor e o exortava a andar na linha, porque senão Rand, como seu herói, ia dinamitar o estúdio. He-he. Cineasta vale-se de declarações, aqui e ali, para sustentar que Rand é a influência por trás dos Trump’s boys, embora a maioria, ao contrário de Donald, prefira o último livro dela, Atlas Shrugged, em que a autora mistura ficção científica, e mistério, e romance para fazer sua defesa da razão, do individualismo e do capitalismo e para condenar o que considera a coerção governamental sobre a livre iniciativa dos empresários. Aliás, acho que não é só na ‘América’ que Ayn Rand voltou à moda. Só esse artigo já valeria o número de Cineaste, mas tem mais. Não sei de vocês, mas eu há tempos andava me perguntando – e o Kusturica? Soube que Emir estava fazendo um filme com Monica Bellucci, On the Milky Road. Cadê o filme? Cineaste foi a Kustendorf, um parque temático criado por Kusturica na Sérvia rural para sediar um festival de música e cinema. Até aí, tudo bem, mas Richard Porton, um dos editores de Cineaste, desvenda o atual estado da mente de Emir. Que ele venera o Che, Maradona e Fidel já sabíamos de seu documentário sobre o jogador. Emir também reverencia Noam Chomsky e todos são nomes de ruas e teatros em Kustendorf. O inusitado talvez seja o novo ídolo de Kusturica – Putin! O novo czar de todas as Rússias entrou para o Nirvana de Emir como consequência do ódio do artista pela nova administração da Bósnia, que ele considera responsável não só pelo sofrimento do povo sérvio como por seus infortúnios pessoais. Os islamitas bósnios, que Emir considera lacaios dos EUA, destruíram duas propriedades dele e, por conta disso, o Che, Fidel e Putin formam atualmente sua tróica, por mais dissonante que seja. Cineaste levanta que a relação de Kusturica e Putin – tem uma foto dos dois na mesma mesa; diz-me com quem comes e eu te direi quem és – pode ter sido responsável pela não seleção de sua Milky Road em Cannes, malgrado Monica Bellucci, a própria maitresse de cérémonie do festival. Jesus! esse mundo tá doido mesmo. E Cineaste ainda debate o tema das black lives no cinema de Charles Burnett, o novo cinema francês com e sobre as mulheres da periferia, a câmera como personagem (um estudo sobre Anthony Richmond, que foi fotógrafo de Nicolas Roeg e Jean-Luc Godard) e a Poetry in Motion (o ‘caso’ Terence Davies em Além das Palavras, sobre Emily Dickinson). Chega para vocês? Ainda não. A parte de home video traz análises de obras fundamentais de Luis Buñuel (O Anjo Exterminador), Elio Petri (A Propriedade não É Um Roubo), Felipe Cazals (Canoa) e Ermanno Olmi (A Árvore dos Tamancos). O mais surpreendente de tudo é o resgate de um filme agora emblemático do gênero blaxploitation – Os Homens Violentos do Klan/The Klansman, de Terence Young, de 1974, com Richard Burton, Lee Marvin, O.J. Simpson e Lola Falana. O filme foi tratado como lixo, na época, e o que mais me agradou foi que, para promover o filme esquecido de Young, o ‘pai’ de 007, Cineaste exuma Mandingo, de Richard Fleischer, também tratado a pontapés (em 1975), mas que no meu imaginário sempre foi uma obra-prima sobre o abuso e selvageria da escravidão, e o anti …E o Vento Levou. Se com esse post eu ajudar a trazer Cineaste para o debate sobre arte e política do cinema no País…