Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Cidades e neon-realismo

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

Cidades e neon-realismo

Luiz Carlos Merten

24 Abril 2009 | 15h47

Ainda não tive tempo de ler nem um nem outro, mas são livros que, de alguma forma se articulam e prometem. ‘Ecos Urbanos’, organizado por Angela Prysthon e Paulo Cunha, da Editora Imagem-Tempo, tem o subtítulo de ‘A Cidade e Suas Articulações Midiáticas’, com um capítulo inteiro dedicado ao cinema. ‘A Metrópole Cindida’ (o clichê do melodrama no interior das narrativas documentárias), ‘Entre Clarões e Trevas’ (a cidade noir no paracinema) e ‘A Cidade Nua’ (regimes de representação). Numa folheada rápida, já vi que o autora do primeiro, Mariana Baltar, investiga especialmente o caso de ‘Ônibus 174’, de José Padilha. O outro livro, também da Imagem-Tempo, é ‘Cinema Brasileiro Pós-Moderno’, de Renato Luiz Pucci Jr., que investiga o neon-realismo à brasileira, dissecando três filmes dos anos 80 – ‘Cidade Oculta’, de Chico Botelho; ‘Anjos da Noite’, de Wilson Barros; e ‘A Dama do Cine Shangai’, de Guilherme de Almeida Prado. Botelho e Barros morreram no mesmo ano, 1992, e eu já estava em São Paulo desde o final de 1988, mas não tive tempo de conhecer nem um nem outro. Confesso que não sou muito seduzido pelos clichês desse cinema neon-realista, mas como tema de estudo e reflexão me parece interessante – e a cidade é fundamental em todos esses filmes -, só não sei se o autor faz conexões com o neon-realismo de Walter Hill (‘Ruas de Fogo’) e Francis Ford Coppola (‘O Fundo do Coração’), com aquela Las Vegas reconstituída em estúdio. Misturando um pouco as bolas, sempre me impressionaram muito as semelhanças entre o filme de Coppola e ‘Jogo de Paixões’, que George Stevens realizou 12 anos antes, reconstituindo Las Vegas em estúdio para atender a um capricho de Liz Taylor, que não queria se afastar de Richard Burton, que rodava sei lá que filme num estúdio próximo, acho que na França (e era, senão me engsano, ‘Os Delicados’, de Stanley Donen). Tudo em ‘O Fundo do Coração’ remete a ‘Jogo de Paixões’ – a corista, o jogador, o artifício dos cenários de neon, a importância conferida a um avião, obviamente também falso, no desfecho de ambos). Apesar disso, nunca vejo ninguém relacionar os dois filmes. Por que será? Coppola estava no auge em 1982, Stevens estava se acabando em 1969/70. será por isso?