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Luiz Carlos Merten

05 Agosto 2007 | 19h51

Já contei que meu primeiro emprego foi no Colégio Israelita-Brasileiro, em Porto Alegre. Integrava o núcleo de audiovisual, que dava apoio às atividades didáticas. Trabalhava com dois críticos – José Onofre, que foi depois meu primeiro editor no Caderno 2, e Tuio Becker, um amigo muito querido, que hoje sofre do Mal de Alzheimer, mas teve destacada atuação na imprensa gaúcha, escrevendo sobre cinema na extinta Folha da Manhã e em Zero Hora, ambos os jornais de Porto Alegre. Embora tenha começado ali,quero dizer que nunca foi uma aspiração minha visitar o Estado de Israel. O cinema me trouxe aqui, como presidente do júri do 7º Festival do Cinema brasileiro. Estou curtindo tudo – as sessões, as pessoas que conheço, o país. Tenho ouvido e visto coisas que me permitiriam fazer uma série sobre Israel. Coisas positivas e negativas, também. Vão ficar para depois. Agora, quero só relatar rapidinho – já passa da uma da manhã – as minhas aventuras de hoje. Em companhia de Michel Joelsas, o ator mirim de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, e sua mãe, Marisa, mais um guia muito simpático, Mordechai, ou Morty, como prefere ser chamado, fizemos um tour andando por cerca de 6 horas pela Cidade Velha de Jerusalém. Li na viagem um best seller – O Legado dos Templários – que faz especulações muito interessantes sobre a vida (e o legado) de Cristo. O problema desses livros é que o desfecho, em geral, termina sendo pouco satisfatório, e este não foge à regra. Mas estava com a presença de cruzados e templários na chamada ‘Terra Santa’ muito viva na minha lembrança. Foi uma experiência e tanto percorrer as estações da Via Dolorosa na Igreja do Santo Sepulcro, descendo até o nível onde, supostamente, Helena, a mãe do imperador Diocleciano, localizou o lugar onde teria sido depositada a cruz. Dali fui até o Muro das Lamentações, onde, confesso, tive um choque com a devoção daqueles milhares de judeus que, como os católicos em Fátima ou Aparecida, vivem ali seu êxtase religioso. Cumpri o ritual de deixar meu bilhetinho encravado nas pedras do muro. Jerusalém está comemorando 40 anos da reunificação. Já visitei os lugares santos do cristianismo e do judaísmo. Só me falta agora a grande mesquita em que, segundo o Corão, Maomé subiu ao sétimo céu. Em vários lugares daquelas muralhas – não as do muro, claro -, buracos nas paredes são testemunhos da violência religiosa e política que faz do Oriente Médio uma das regiões mais belicosas e sangrentas da Terra. O período atual é de calma, até em Ramalah, onde vou amanhã. As três religiões são forçadas a coexistir na Cidade Velha, mas isso aqui é um barril sempre prestes a explodir. Imagino que muita gente gostaria de ter estado no meu lugar, quando entrei na Igreja do Santo Sepulcro e, depois, quando toquei no Muro das Lamentações – também havia tocado a pedra do Gólgota. Mais do que aquilo que se vê em Jerusalém, o que a gente imagina é que faz pirar. É uma viagem dentro da viagem. Repassei muitos filmes, do velho Ricardo Coração-de-Leão ao recente Cruzada. O cinema me trouxe aqui. O cinema me faz viajar nestes lugares em que o mito se superpõe à história. Que coisa!