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Luiz Carlos Merten

09 Abril 2007 | 09h09

Volto a Tóquio neste final de semana. Já estive lá em 1995. A coisa que mais me impressionou, na vida, foi aquela esquina em Shibuya, com os imensos painéis luminosos e animados, dotados de voz. Me senti dentro de Blade Runner, o cult de Ridley Scott. O futuro já estava ali. Antes de me dedicar ao jornalismo (e ao cinema), estudei arquitetura. Sou muito atraído pela questão do espaço. Acho Berlim uma das cidades mais interessantes do mundo (entre as que conheço). Toda aquela área de Potsdamer Platz, por onde antes passava o Muro, virou futurista – e o Sony Center, com aquele logo lá no alto, é a cereja do bolo. Adoro Trafalgar Square, Time Square, com toda aquela Babel de cores, anúncios. São lugares em que eu sinto que vivemos a era da imagem. São Paulo aprovou agora uma lei da cidade limpa que está banindo todo tipo de placa. Uma das raras que permanece, na Sumaré, sentido Pinheiro, é a que mostra o bumbum de Daniela Ciccarelli, com sua calcinha Hope. Compreendo os motivos e até acho que a lei é disciplinadora. Mas outro dia, indo com o carro do jornal para uma pauta, fiquei besta (gauchismo que quer dizer pasmo) de ver a paisagem ao redor do Minhocão. Gente, mas aquilo é muito feio! Sem os outdoors para disfarçar e colorir, o que se oferece aos olhos é uma arquitetura cinza, sem forma, um horror. Hoje de manhã, descendo a Sumaré para o jornal, na Marginal, fiz o trajeto inverso e, portanto, não sei se a brava Daniela ainda está lá, resistindo como um colírio naquela parede. Mas quando fiz a curva para entrar no Viaduto Antártica, tomei um susto. Aquele monte de padarias, bares e lanchonetes à esquerda, sem os luminosos, parecem ruínas e ali, pelo menos, eu não vi nada interessante naquela arquitetura. Não vai melhorar muito quando derem uma mãozinha de tinta. A coisa toda é muito complicada, reconheço. No futuro, até poderemos gostar, quando se atingir um meio termo, que não sei qual é. Mas o que tenho visto é uma cidade muito malcuidada e agora está tudo na cara, sem artifício. É verdade que o conceito de estética não é exato. Eu, por exemplo, acho aquela arquitetura pós-moderna da Berrini e da nova Faria Lima uma coisa de muito mau gosto. Tem prédio ali que me ofende mais que muito outdoor. Não de devo ser o único a pensar assim. Outro dia esteve aqui em São Paulo uma especialista européia – meu editor, Dib Carneiro Neto, foi quem me contou – que achou o Shopping Iguatemi um acinte, disse que a Rua Oscar Freire é um monumento ao mau-gosto, com todas aquelas lojas de grife metidas a bacanas, e para completar ela disse que gostou da 25 de Março (que, a esta altura, a lei da cidade limpa deve estar querendo banir do mapa). Trazendo o problema, muito especificamente, para a nossa área do espetáculo, Eduardo Tolentino, diretor do Tapa, usou a festa da APCA para protestar contra a retirada dos cartazes das marquises de teatro. É uma tradição em todo mundo, mas que em São Paulo,. que é uma cidade limpa, não pode mais. No Guia do Estado da última sexta-feira, o cri-crítico também botou a boca no mundo – ficou muito difícil saber que filme está passando, e onde. Estou achando tudo isso muito estranho e como vejo que algumas empresas, ou marcas, ainda resistem à lei, imagino que estejam pagando multa. Quer dizer, vira e mexe é tudo uma questão de dinheiro. Quem tem, pode.