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Luiz Carlos Merten

22 Agosto 2007 | 14h28

Agora, sim. Cidade dos Homens. Alguém já previu que Primo Basílio, Cidade dos Homens e Tropa de Elite são as apostas para grandes bilheterias do cinema brasileiro neste segundo semestre. A turma dos dez mil espectadores deve estar arrepiada, pensando, como sempre, que a qualidade de um filme não se mede na bilhetreria e o filme pode ser um grande sucesso e ser ruim. Concordo, mas dessa faixa dos dez mil, para mim, pelo menos, é muito difícil tirar um filme bom que eu possa dizer que o público não apoiou (ou entendeu). Cidade dos Homens vai ser um sucesso? Tomara que seja, mas é um problema, ou uma discussão, que ultrapassa os meus limites de ‘crítico’ (por menos que goste da definição). Acho que Cidade dos Homens não tem o impacto de Cidade de Deus e, sob certos aspectos, me pareceu um tanto didático, como abordagem dos temas sociais ligados ao tráfico e à favela. O diretor Paulo Morelli, só pude perceber ontem, colocou todo o filme dele no cartaz, em que o M é formado por dois caras que dão a mão com uma criança. Cidade dos Homens não é sobre o tráfico, embora ele esteja lá, com sua violência (e disputa pelo poder). O tema é a paternidade e, no bojo dele, vem a responsabilidade. Laranjinha procura o pai que o rejeitou, Acerola precisa assumir o filho que está prestes a rejeitar. Pode parecer simplificação, mas questões como paternidade e responsabilidade são essenciais quando se aborda a situação explosiva nos morros e os meninos de rua como espelho do abismo social no Brasil. Vamos voltar ao assunto no dia 31, quando o filme estrear. Só quero acrescentar que o tema é muito mais universal do que parece. Paulo (Morelli) achou muito engraçado quando lembrei que há mais de 50 anos, quando Os Boas Vidas estreou na Itália, o debate sobre os vitellioni de Fellini não foi sobre a estética (o realismo ‘interior’ que o cineasta tratava de estabelecer). A questão era a ausência do pai, numa Itália em que até uma década antes ele era encarnado por Mussolini, o fascista pai da pátria. Os adultos de Fellini comportam-se como crianças. Não amadurecem. Os críticos mais à esquerda viam neles um espelho da crise de identidade, a crise política, do país. Vamos ter de encarar o assunto a propósito de Cidade dos Homens. Aguardem!