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Luiz Carlos Merten

31 Agosto 2007 | 12h23

Quando coloquei o número um no post anterior foi sabendo, claro, que teria de haver um 2. Falei tanto sobre a gênese de Acerola e Laranjinha que deixei muito no ar a essência de Cidade dos Homens. O filme tem menos impacto do que Cidade de Deus, mas isso se deve à própria abordagem. O tráfico, a violência, as guerras de gangues estão lá e fornecem o fundo dramático, mas não ‘o’ tema. Acerola e Laranjinha ganharam o público justamente porque não têm vocação para o crime e tentam escapar do tráfico usando a esperteza e a lábia. Quando Fernando Meirelles lhe acenou com a possibilidade do longa, no fim do segundo ano da série, Paulo Morelli usou a terceira temporada para formatar o que viria a ser o tema do longa que estréia hoje. A paternidade. Na verdade, o que está em discussão, mais que o pai, e é o ‘não pai’. Acerola hesita em assumir o filho, Laranjinha tenta se aproximar do pai que o rejeitou. De alguma forma ambos formam uma nova família solidária no desfecho, de mãos dadas com o menino (formando o M de Homens, no título, tal como aparece no cartaz). Morelli fala muito em responsabilidade, e eu acho que a sensação inicial que tive – sobre o didatismo de Cidade dos Homens – vem um pouco daí. Não é que o cinrema tenha de apontar caminhos, mas ele queria terminar sua ‘fábula’, como Luiz Zanin Oricchio define Cidade dos Homens em sua crítica, com uma nota de esperança. É compreensível. Existe hoje nas comunidades uma preocupação acentuada de oferecer alternativas à garotada, para que resista à tentação do tráfico, e também um estímulo à paternidade responsável. Tenho visitado sets de filmagem em morros e favelas e é uma coisa que sinto, mesmo passando pouco tempo naqueles locais. Esse tema da paternidade, claro, é muito mais amplo. Antônio Gonçalves Filho faz uma análise muito interessante na edição de hoje do Caderno 2. Sob o título ‘Os orfãos de um País atrás da autoridade do pai’, ele diz, o que é absolutamente verdadeiro, que a dupla de garotos do filme, apesar dos nomes doces, fornece amargas metáforas de criaturas à deriva. E isso não vale só para Cidade dos Homens. Não é um fenômeno isolado. Nos anos 70, em plena ditadura, Ana Carolina fez o documentário Trabalhadores do Brasil, discutindo o mito de Getúlio Vargas como pai do povo. Por volta de 2000, Bicho de Sete Cabeças, Lavoura Arcaica e Abril Despedaçado possuíam uma característica muito interessante em comum. Todos tinham cenas de família à mesa e tratavam do autoritarismo nas relações entre pais e filhos. Órfãos ou no seio da família, na ditadura e na democracia, o jovem brasileiro vive o flagelo do pai e do não pai. Bom material de reflexão que confirma – Cidade dos Homens fornece diferentes chaves de análise. Ponto para Paulo Morelli.