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Luiz Carlos Merten

31 Agosto 2007 | 11h16

Fizemos hoje uma bela edição, no caderno 2, sobre Cidade dos Homens, que estréia em 160 salas, 10% das quais (exatamente 16) em projeção digital. Gostei do filme do Paulo Morelli e espero que vocês gostem também. Quando saí da cabine diretamente para a entrevista com o diretor, acho que o Paulo ficou um pouco decepcionado porque lhe disse que tinha gostado, mas tinha achado o filme um tanto didático, preocupado com a ‘mensagem’, ligada ao tema da paternidade. Cidade dos Homens tem crescido na minha lembrança, como Acerola e Laranjinha, que começaram crianças e agora estão homens. É curioso – a gente sempre diz que Cidade dos Homens surgiu na TV como decorrência do sucesso de Cidade dos Homens no cinema. Acerola e Laranjinha fizeram a passagem do cinema para a TV e, agora, para o cinema de novo. Na verdade, não foi assim. Acerola e Laranjinha, personagens interpretados por Douglas Silva e Darlan Cunha, são anteriores ao filme de Fernando Meirelles. Ambos surgiram no curta Palace II, que Fernando dirigiu em parceria com Kátia Lund, quando não apenas ele, mas o fotógrafo César Charlone, o diretor de arte Tulé Peak, as figurinistas Bia e Inês Salgado e a maquiadora Anna Van Steen, pesquisavam para o longa adaptado do livro de Paulo Lins. Palace II foi uma encomenda de Guel Arraes para Fernando Meirelles. Quer dizer – Guel queria que o Fernando fizesse um episódio de Brava Gente, histórias num formato de 30 minutos que a Globo queria veicular no fim de 2000, como especial de Natal. Fernando estava naquela fase de ensaiar com o elenco jovem do filme. Ele propôs e a Globo topou a história de dois garotos tentando se livrar do tráfico na lábia e na esperteza. Surgiram Acerola e Laranjinha e Palace II, no formato curta, foi enviado para o Festival de Berlim, onde fez o maior sucesso (e ganhou prêmio). Como obra de experimentação para o longa, Palace II fez coisas como fotografar os atores negros com a pele besuntada de óleo. Os críticos caíram matando. O curta estaria cosmetizando a miséria e a etiqueta – cosmética da fome – foi colada no longa antes mesmo que estreasse. Não conto isso para reabrir a velha polêmica ‘estética versus cosmética da fome’ – queria fazer um novo debate na APCA, a Associação Paulista dos Críticos de Arte, para lembrar do assunto, cinco anos depois de outro debate pioneiro, em 2002, mas não deu porque Fernando Meirelles está filmando no Canadá (agora já deve estar no Uruguai). Resumindo – estou só lembrando que Acerola e Laranjinha, na verdade, surgiram num especial de Natal da Globo. Da TV para o cinema, para a TV de novo e de volta para o cinema. Êta, duplinha viajada nas mídias!