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Luiz Carlos Merten

28 Outubro 2006 | 09h34

Ao chamar a atenção, ontem, para alguns lançamentos de DVD, deixei de lado um dos mais importantes. Está saindo, ou já saiu, pela Universal (é isso?), me informou o Antônio Gonçalves Filho, O Criado, primeira parceria de Joseph Losey com Harold Pinter. O filme de 1963 foi um marco divisor de águas na carreira do Losey. Cineasta americano, ele trocou a medicina pelo teatro e e partiu em viagem de estudos pela Europa, voltando muito influenciado pelo distanciamento crítico de Brecht. No cinema, estreou em 1948, com O Menino de Cabelos Verdes, apólogo contra o racismo que foi lançado recentemente pela Aurora. Sua atividade política (e ligação com o Partido Comunista)o condenou à lista negra do macarthismo e Losey seguiu de novo para a Europa, agora para ficar. Fez filmes sob pseudônimo e só no fim dos anos 50 readquiriu sua identidade, assinando obras como Entrevista com a Morte, Armadilha a Sangue Frio e Eva. Particularmente, prefiro Eva, mas foi com O Criado que Losey finalmente conseguiu se impor, virando um valor de mercado sem transigir um milímetro de suas concepções estéticas e políticas. Dirk Bogarde é o criado que vai assumindo controle da casa (e da vida) do patrão, James Fox. A mise-en-scène é suntuosa, incorporando o barroquismo que Losey trouxe de Eva e, embora a luta de classes seja muito forte, o choque entre os indivíduos cria os grilhões psicológicos que o autor continuou estabelecendo em Estranho Acidente, O Mensageiro, Casa de Bonecas e Cidadão Klein. Foi um encontro decisivo – Losey, Pinter e Dirk Bogarde, sendo oportuno assinalar que, na seqüência da parceria do diretor com o dramaturgo, o tempo se tornou cada vez mais determinante. Losey parece incorporar elementos de Resnais em Estranho Acidente e, no Mensageiro, antecipa o que seria o seu Em Busca do Tempo Perdido, que faria com roteiro de Pinter. Aliás, os olhares de três diferentes escritores sobre Proust, alinhados com os conceitos de três diferentes autores, é uma coisa muito interessante de analisar. Daria um belíssimo curso de roteiro comparado – o Tempo Perdido de Losey e Pinter; o de Visconti e Suso Cecchi D’Amico; o de Volker Schlondorff e Jean-Claude Carrière (o único que foi filmado, Um Amor de Swann). Será preciso voltar a O Criado, pelo qual o próprio autor nutria um sentimento ambivalente. Losey reconhecia no filme a cristalização de suas idéias, mas certa vez, numa entrevista, disse que ainda era um estrangeiro na Inglaterra. Não conhecia suficientemente as regras e etiquetas do país para saber que algumas cenas teriam de ser filmadas de outra forma. Na Inglaterra dos anos 60, no alvorecer dos Beatles, bastaria a um aristocrata, mesmo decadente, falar num certo tom de voz para recolocar nos eixos o criado recalcitrante. É curioso que Losey tenha dito isso, porque, na verdade, a implosão do mundo que ele filma faz parte das transformações que estavam ocorrendo. O Criado é fundamentalmente o registro deste momento em que o sistema de classes implode na velha Albion. Losey filma com olhar clínico, o que leva à dureza, contrariamente a uma certa frouxidão de mise-en-scène (ou sentimentalismo) que entrava a releitura do tema por James Ivory e Kazuo Ishiguro em Vestígios do Dia, no qual James Fox, como o patrão, mantém rigoroso controle sobre seu criado, Anthony Hopkins.

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